Quatro décadas depois de Oswald de Andrade propor um movimento antropofágico nas artes brasileiras, o antropofagismo finalmente chegou à canção popular com o Tropicalismo. Em um momento em que se valorizava a música engajada, popular e nacionalista, com a então recém-surgida MPB, o Tropicalismo ousou atualizar a música popular a partir de elementos do pop internacional, como as guitarras elétricas e linguagens caóticas e baseadas em colagens, e não se preocupar com um engajamento sociopolítico em suas letras.

Tendo entre seus expoentes Caetano Veloso, Tom Zé, os maestros Júlio Medaglia e Rogério Duprat, o grupo Os Mutantes e Gilberto Gil, o Tropicalismo (ou Tropicália) teve curta duração, mas, ainda assim, fez uma das mais marcantes transformações nas artes brasileiras.

Apesar de não se caracterizar como um movimento, o Tropicalismo abrangeu não só a música, mas também as artes plásticas, o cinema, o teatro, a poesia e o comportamento. Entretanto, é na canção que ele teve seu maior impacto, não só se consagrando como um dos gêneros mais originais da música popular brasileira como também estendendo sua influência estética por décadas.

tropicalistas
©1967 Hélio Oiticica Trio tropicalista: Caetano com Gilberto Gil e Gal Costa em 1967

Tropicalismo: sem lenço, nem documento

“Alegria, Alegria” foi apresentada por Caetano Veloso e a banda de rock argentina Beat Boys no 3.° Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, em outubro de 1967. Com um arranjo musical que a fez uma marchinha pop e com uma letra aparentemente descompromissada, que trazia uma colagem de ações e de elementos do cotidiano típicos de um jovem da classe média, a canção mostrou para a audiência que havia algo radicalmente novo na música popular brasileira.

Acostumados ao explícito engajamento da MPB ou ao lirismo bem-comportado da bossa nova que predominavam nesses festivais, a plateia composta majoritariamente por universitários estranhou o que ouviu. O estranhamento, no entanto, não se limitou à canção de Caetano Veloso. A apresentação no mesmo festival de “Domingo no Parque”, com Gilberto Gil acompanhado pelo grupo de rock Os Mutantes, causou praticamente a mesma sensação e deixou evidente que uma nova vertente surgia na música popular .

Para indignação dos puristas defensores de uma canção “autêntica” brasileira e politizada, a nova estética musical proposta naquele momento por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes resgatava a importância da Jovem Guarda, movimento combatido pelos emepebistas, e apontava que o futuro da canção popular residia na apropriação do pop internacional e na sua transformação a partir da fusão com elementos nacionais, nos mesmos moldes que escritores, artistas e compositores modernistas transformaram as artes brasileiras nos anos 1920.

A estética tropicalista combinou o antropofagismo, proposto por Oswald de Andrade, a poesia concreta dos anos 1950, as musicalidades da bossa nova e da Jovem Guarda e as ideias de uma nova geração de músicos, compositores, produtores e arranjadores interessados em radicalizar as questões artísticas que emergiram nos anos 60. O Tropicalismo propôs uma redescoberta do Brasil, mas dentro de uma linha evolutiva que defendia a internacionalização da arte nacional e uma identificação da canção popular com os anseios de uma sociedade urbana, às voltas com os produtos de consumo, a indústria de entretenimento e as transformações comportamentais que marcaram a década de 60.

Naquele festival da TV Record de 1967, “Alegria, Alegria” terminou em quarto lugar, enquanto “Domingo no Parque” ficou em segundo, atrás da emepebista “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam. No final daquele mesmo ano, Caetano Veloso compôs “Tropicália”, nome inspirado na obra de Hélio Oiticica, e que foi considerada uma espécie de canção-manifesto do novo gênero e do movimento que se formava. Leia a seguir como o Tropicalismo transformou-se na principal expressão da contracultura brasileira.

Artes tropicalistas

O Tropicalismo não existiu só na canção. Para muitos estudiosos uma série de produções em diferentes linguagens artísticas que aconteceram na segunda metade da década de 60 se desenvolveram em torno dos mesmos conceitos e ideais que fundaram a Tropicália na canção. Uma dessas produções foi nas artes plásticas com a obra de Hélio Oiticica que inspirou o nome do movimento. “Tropicália” foi exposta em 1967 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e foi descrita como uma obra labiríntica que,segundo o artista, criava um ambiente tropical, em sua mistura de Parangolés, poemas-objeto, aparelho de televisão, areia, araras e plantas. No cinema, a estética tropicalista emergia na radicalização das propostas do Cinema Novo com “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, e, no teatro, nas montagens experimentais de “O Rei da Vela” e “Roda Viva”, do Grupo Oficina. Entre as características que uniam essas produções em diferentes linguagens estavam o experimentalismo, que caracterizou as vanguardas, e uma visão positiva e inovadora, sem perder o tom de crítica social, que encaminhou a arte para uma abertura cultural que superava o discurso nacional-popular característico da MPB.

Reprodução Capa de álbum de Caetano Veloso lançado em 196

Tropicalismo é contracultura

Apesar de “Tropicália” ser considerada uma canção-manifesto do gênero, o Tropicalismo só passou a ser chamado assim quando o crítico musical Nelson Motta publicou, em fevereiro de 1968, o artigo “A Cruzada Tropicalista”, no jornal Última Hora. Motta foi um dos primeiros a reconhecer que várias produções artísticas – no cinema com Glauber Rocha, no teatro com o grupo Oficina, nas artes plásticas com Hélio Oiticica – e aquela nova  música que surgia estavam de alguma forma articuladas em torno de propostas estéticas similares, o que caracterizava um movimento artístico amplo e que buscava uma ruptura com os padrões vigentes.

Na canção, o Tropicalismo fez a síntese da música e da poesia e, ao longo de 1968, aproximou-se definitivamente dos ideais da contracultura hippie. Suas canções abordaram questões como o sexo livre, o psicodelismo e ironizaram os valores e estilos de vida tradicionais. Além disso, outros aspectos da contracultura dos anos 60 faziam parte das apresentações musicais dos artistas tropicalistas. Suas performances teatrais e irreverentes, roupas inventivas e coloridas e os happenings festivos no palco se opunham ao minimalismo “banquinho e violão” da bossa nova e à sisudez e seriedade emepebista. Essas características só reforçavam a acusação de “alienação” que alguns críticos faziam ao movimento.

Um dos principais elementos para a inovação tropicalista na canção foi o trabalho dos maestros-arranjadores Julio Medaglia e Rogério Duprat. As experimentações de vanguarda que eles levaram para a canção popular  conquistaram os tropicalistas Gilberto Gil e Caetano Veloso. Foi Duprat quem apresentou a eles o grupo paulista Os Mutantes, que seria essencial na construção de uma sonoridade pop e internacional do Tropicalismo.

Em 1968, saíram os discos de Caetano Veloso e Gilberto Gil que são as primeiras obras da Tropicália, mas foi em agosto daquele ano que surgiu o que é considerado o disco mais emblemático do gênero: “Tropicália ou Panis et Circensis“. O álbum foi uma obra coletiva que misturava do baião ao rock em canções inéditas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Capinam e Tom Zé, interpretadas por Gal Costa, Nara Leão e Os Mutantes, entre outros. A carnavalização, a crítica social e da cultura e a cafonice foram alguns dos elementos presentes nas canções para compor um retrato do Brasil, uma “geléia geral” que já se apresenta na imagem da capa do álbum e que continua nas canções de forma fragmentária a partir da visão irreverente dos tropicalistas.

A adoção do Ato Institucional n.° 5 (AI-5) pelo governo militar no país em dezembro de 1968 marcou o fim do Tropicalismo já que seus principais expoentes, Caetano Veloso e Gilberto Gil, partiriam para o exílio. Em 1973, Caetano lançou o disco “Araçá Azul”, uma obra experimental que aglutinou os principais elementos tropicalistas, mas, numa das fases mais repressivas da ditadura militar brasileira, ela teve pouco impacto. Mesmo durando pouco mais de um ano, o Tropicalismo causou um profundo impacto na canção popular no Brasil e abriu espaço para o surgimento de novas vertentes musicais nacionais que procuraram de forma inovadora atualizar a canção popular brasileira.

Influência do Tropicalismo

Apesar da sua vida curta (1967-1968), o Tropicalismo exerceu forte influência na canção popular brasileira por décadas. Nos anos 70 e 80, a herança tropicalista é perceptível nas obras de grupos como Secos & Molhados, Novos Baianos e A Cor do Som e em muitas canções de artistas como Jorge Ben e Alceu Valença. A proposta tropicalista de atualização da nossa canção popular ecoou também no movimento Mangue Beat, no começo da década de 90, e, nos anos 2000, alguns então artistas emergentes como Zeca Baleiro e Lenine foram classificados pela crítica como “neotropicalistas”.

Texto de Sílvio Anaz

Veja Também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *