Santo Tomás de Aquino refutado os hereges

santo-tomas-de-aquino-refutado-os-hereges

Uma suposta refutação para as cinco vias de Santo Tomás de Aquino.
.
O autor considera o seguinte (ver item 3.3, do link):.a)
o argumento (do Ser necessário, de Santo Tomás) não considera a
possibilidade lógica de as coisas terem existido sempre, apenas se
transformando;
.
b) o argumento comete a falácia de composição, a qual consiste em atribuir que as partes é igual ao todo — o enunciado “para cada coisa houve um tempo em que não existiu” constitui uma referência e, o enunciado “houve um momento em que nada existia” pertence a uma outra referência; são referências de natureza diferentes e sem relação entre si.

Infelizmente o autor não discorre muito (por que será?). Não diz, por exemplo, porque que “são de naturezas diferentes e sem relação entre si”, apenas faz a afirmação.
Muito simples refutar:

.
1) Não existe efeito sem causa;
.
2)
Não existe infinito numérico. O infinito numérico ou infinito em
potência, ou infinito potencial, é um ser de razão. Não existe como ser
real.
.
Quando dizemos que não há efeito sem causa, chega até a ser meio redundante, se levarmos em conta que ao chamarmos algo de “efeito”,
já implicitamente deduzimos que se originou de algo, que teve um
agente causador. A questão discutida é se todas as coisas existentes
podem ser classificadas como “efeitos”.
.
A diferença está dada quando ele diz que se compara a parte ao todo: a afirmativa “para cada coisa existe um momento no tempo em que não existiu” refere-se a uma parte, a um corpo isolado, individual. Usar esta assertiva substituindo-se o “coisa” pelo “todo” leva
à conclusão de que então, se o todo hoje existe, algum dia o todo não
existiu. Para o autor, há um abuso lógico aqui, uma falácia.
.
Não existe falácia, pois em nenhum momento estamos tratando do “todo”, mas de cada coisa.
.
Estamos
falando do ser em geral, mas do ser que se manifesta em cada coisa. O
universo é apenas um conjunto de substâncias que se reúnem
acidentalmente. Por isso, não faz sentido se falar em “Causa do
universo” ou “Causa do todo”, pois não existe o Universo como uma
unidade essencial. Provando assim que, cada coisa não existe por si
mesma, há que se supor uma Causa que exista por si mesma, para cada uma
delas.
.
A
razão nos indica que essa Causa tem que ser a mesma para todas, pois,
se não fosse única a Causa de todas, teria ela o mesmo defeito de
todas, pois só o ato puro, em que não há absolutamente nenhuma
potência, em que a essência é idêntica à existência, pode sustentar toda
sorte de causas. Se não fosse único, lhe faltaria algo, teria
potência, sua essência não seria idêntica à sua existência, logo, não
poderia ser a primeira de nenhuma série de causas.
.
O que o infinito numérico tem a ver com isso, se é uma idéia abstrata?
.
Quando
dizemos que não há efeito sem causa, isso é só uma maneira mais
grosseira de enunciar esse axioma. Em se tratando de filosofia, às
vezes, as sutilezas podem prejudicar a compreensão. Por exemplo, se nós
falassemos aqui que a potência não passa ao ato sem que haja uma causa
eficiente, ou que nada pode ser causa eficiente de si mesmo, talvez
isso soasse estranho a algumas pessoas menos familiarizadas com esses
termos.
.
A respeito do infinito numérico, ela é uma refutação ao Marcus Valério XR, famoso pelo seu site “Filosofia Exeriana”:
.
Eles
não abordaram o que para mim é a maior falha do argumento, o que
afirma que uma sucessão infinita de coisas movidas por outra é
impossível. Por que essa sucessão infinita e impossível?

.
Uma
vez, eu usei esse argumento contra um ateu: Disse a ele que o infinito
numérico não existia na realidade, e que eu era completamente cético
quando a existência de uma quantidade infinita de seres contáveis no
mundo real. Ele até hoje não me provou a existência real do tal
infinito numérico.

.

Pode-se
supor o infinito de duas maneiras: o infinito em ato e o infinito em
potência. O infinito em potência é um ente de razão; na realidade, nunca
passaria ao ato, pois sempre haveria de se acrescentar mais um número.
Não tem como ter existência real, pois a realidade existe,
independente da nossa percepção, se contarmos os elementos ou não. Por
isso, esse infinito se diz “em potência”.
.
Santo
Tomás mostra que a possibilidade lógica das coisas terem existido
sempre não repugna à razão, já que também não repugna à existência de um
Ser necessário. Pela razão, o mundo poderia ter existido sempre,
embora, pela fé, afirmemos que, de fato, não o foi; não que não o
poderia.
.
E
por que não repugna à existência de Deus o mundo ter existido sempre,
uma vez que é completamente contrário à razão que uma determinada série
causal regrida ao infinito? Porque cada causa é indispensável à
existência de suas sucessivas, mas, quando não há essa relação de subordinação entre uma causa e outra, não repugna à razão que Deus a tenha feito existir desde sempre:
.
Primeiramente
assim: nenhuma causa que produz seu efeito de modo instantâneo precede
necessariamente a seu efeito em duração. Deus porém é causa que produz
seu efeito não por moção, mas instantaneamente. Não é necessário,
pois, que preceda em termos de duração a seu efeito.

.
(…)
Logo, com muito mais razão Deus, que produz toda a substância da
coisa, pode fazer que seu efeito seja em cada momento em que Ele seja.

.
Mas,
por que Santo Tomás, sabedor, pela fé, de que o mundo não existiu
sempre, se propõe a provar que este poderia ter existido sempre, caso
Deus o quisesse? Pois ele entendia que defender a fé com argumentos
fracos era torná-la ridícula aos olhos dos incrédulos:

Es útil que se tenga esto presente a fin de que, presumiendo de poder demostrar las cosas que son de fe, alguien presente argumentos no necesarios y que provoquen risa en los no creyentes, pues podrían pensar que son razones por las que nosotros aceptamos las cosas que son de fe. (S. Th., Ia, q.42, a.2, C)
.
É
como imaginar algo que não tem forma, pois algo disforme ainda assim é
forma e não informe. A matéria, para o tomismo, é a pura potência. A
quintessência seria o elemento constituinte dos astros, no mundo
supralunar. Atualmente, é teoria abandonada pela astronomia, bem como a
teoria dos quatro elementos (água, terra, fogo e ar).
.
O
argumento ontológico – Santo Anselmo – é um sofisma: Deus é um ser
infinitamente perfeito. A existência é uma perfeição. Então, a
existência tem que fazer parte da essência divina. Logo, Deus existe.
.
Santo
Tomás encontra nesse argumento dois defeitos. O primeiro, secundário, é
o de nada valer contra quem não entenda, pela palavra Deus, um ser
infinitamente perfeito. O segundo é essencial; o de haver nele uma
passagem ilegítima da ordem lógica para a ordem real. Quando pensamos
num ser perfeitíssimo, temos de fato de o pensar existente, pois, se não
existisse, lhe faltaria essa perfeição. Mas disto só podemos concluir
que um ser perfeito não pode existir em potência. Não podemos concluir
que realmente exista, fora do nosso pensamento.
.
A
contrapartida tomista para o argumento ontológico – essa sim
estruturada a partir das criaturas e não da essência divina, que não
conhecemos – é a prova da contingência (terceira via).
.
Uma  palavra do filósofo Rui Ribeiro Machado sobre a questão:
.

As
cinco vias são provas incluídas dentro de todo um edifício filosófico
que garante a sua veracidade. Infelizmente, procura-se refutar o
núcleo, esquecendo-se de todo o edifício que já foi construído e que o
sustenta. A idéia do círculo vicioso é reclamada pelos ateus que dizem
que o axioma “tudo o que existe tem uma causa” não
se aplica a Deus, logo Deus deveria ter uma causa. Todavia, eles não
partem da análise mais minuciosa do ser, que distingue entre ato e
potência, e assim não percebem que Deus é o ato puro, o ser puro, e o
ser não precisa de causa. Quem precisa de causa é a mudança. 

.
Por
exemplo, na questão da natureza autônoma, simplesmente é irracional
pensar que a natureza se organize por acaso; o autor parece ter uma
idéia errônea acerca do acaso. Acaso não é nada mais do que um encontro
de duas causas. Num encontro de causas, tudo quanto, no efeito, há de
positivo, de real, de ser, é devido à ação das causas que para ele
concorreram, e não do acaso.
” MACHADO, Rui Ribeiro. Extraído do grupo de discussões do Google+ Apologética Católica
.
Aristóteles
e os escolásticos ensinaram que o conhecimento abstrato e universal
deve ser imaterial, e acho que nesse ponto há um ótimo argumento. Mas
antes deve-se demonstrar que os conceitos não são inteiramente
produzidos pelos sentidos e pela imaginação (processo de formação de
imagens).
.
É
raro encontrarmos aqueles ateus que tem a mente e o coração abertos,
dispostos a ser convencidos pela verdade. Mas mesmo na internet é
possível encontrá-los, e essa é a primeira característica que precismos
identificá-los: se eles estão dispostos a aceitarem a verdade, ainda
que preferissem que ela fosse outra.
.
Ao
falar com ateus, lembre-mos de ser manso e mostrar sincera disposição
para ajudá-los. Sabemos que às vezes é muito difícil manter a calma
diante da arrogância e desonestidade de alguns ateus, mas tenha fé que
ao menos uma pessoa terá bom senso. Apesar de muitos ateus definirem-se
como “racionais”, apenas alguns são realmente sensatos, e são esses que conseguirão te ouvir.
.
Se
encarar um debate voltado para a ciência, lembre-mos que a ciência
moderna nasceu na Igreja, que não há conflito entre ciência e fé, e que
teorias como o Big-Bang e Evolução não são incompatíveis com o relato
bíblico da criação.
.
Rezem
por todos, mas mantenha o foco naqueles que buscam a verdade e tem
honestidade para reconhecê-la quando apresentada. Assim, com mais
ajuda, vocês poderão, com a ajuda de Deus, tocar mais corações.
.
Referências:
.
JOLIVET, Regis. Tratado de Filosofia: Moral. Rio de Janeiro: Agir, 1966.
.
SIMON, René. Moral: Curso de Filosofia Tomista. Barcelona: Herder, 1968.
.
“Curso de Filosofia” do Decano da Faculdade de Lyon, autor Regis Jolivet.
.
Padre Leonel Franca: “O Problema de Deus”.
.
Maritain “Caminhos para Deus”
.
Síntese Tomista, do Padre Dezza

Download Católico

“Doctoris Angelici – Sobre o estudo da doutrina de Santo Tomás de Aquino”, de São Pio X

doctoris-angelici-sobre-o-estudo-da-doutrina-de-santo-tomas-de-aquino-de-sao-pio-x

DOCTORIS ANGELICI
Motu proprio
PAPA SÃO PIO X
Sobre o estudo da doutrina de Santo Tomás de Aquino
A filosofia escolástica, base dos estudos sagrados
Nenhum católico sincero pode pôr em dúvida a seguinte afirmação do Doutor Angélico: Regular o estudo compete, de modo particular, à autoridade da Sé Apostólica que governa a Igreja universal, e a isto provê por meio de um plano geral de estudos.[1] Em várias ocasiões, cumprimos este magno dever de Nosso ofício, principalmente quando em nossa carta Sacrorum antistitum, de 1 de setembro de 1910, nos dirigíamos a todos os Bispos e aos Superiores das Ordens Religiosas, os quais têm o dever de atender à educação dos seminaristas, e os advertíamos: “No que se refere aos estudos, queremos e mandamos determinantemente que como fundamento dos estudos sagrados se ponha a filosofia escolástica… É importante notar que, ao prescrever que se siga a filosofia escolástica, Nos referimos principalmente ao que ensinou Santo Tomás de Aquino: tudo o que Nosso Predecessor decretou acerca dela queremos que continue em vigor, e, como se fosse necessário, repetimo-lo e confirmamo-lo, e mandamos que seja observado estritamente por todos. Os Bispos deverão, no caso de que disto se houvesse descuidado nos Seminários, urgir e exigir que de agora em diante se observe. Igualmente mandamos aos Superiores das Ordens Religiosa”.
Referimo-nos aos princípios de Santo Tomás
Como havíamos dito que havia que seguir principalmente a filosofia de Santo Tomás, e não dissemos unicamente, alguns creram cumprir com Nosso desejo, ou ao menos creram não ir contra este Nosso desejo, ensinando a filosofia de qualquer dos Doutores escolásticos, ainda que seja oposta aos princípios de Santo Tomás. Mas equivocam-se plenamente. Está claro que, ao estabelecer como principal guia da filosofia escolástica a Santo Tomás, nos referimos de modo especial a seus princípios, nos quais essa filosofia se apoia. Não se pode admitir a opinião de alguns já antigos, segundo ao qual é indiferente, para a verdade da Fé, o que cada qual pense a respeito das coisas criadas, contanto que a ideia que se tenha de Deus seja correta, já que um conhecimento errôneo acerca da natureza das coisas leva a um falso conhecimento de Deus; por isso se devem conservar santa e invioladamente os princípios filosóficos estabelecidos por Santo Tomás, a partir dos quais se aprende a ciência das coisas criadas de maneira congruente com a Fé.[2], se refutam os erros de qualquer época, se pode distinguir com certeza o que somente a Deus pertence e não se pode atribuir a nada mais,[3] se ilustra com toda a clareza tanto a diversidade como a analogia que há entre Deus e suas obras. O Concílio Lateranense IV expressava assim esta diversidade e esta analogia: “Quanto mais semelhança se afirme entre o Criador e a criatura, mais se há de afirmar a dessemelhança”.[4]
Estes princípios são como o fundamento de toda e qualquer ciência
Ademais, falando em geral, estes princípios de Santo Tomás não encerram nada além do que já haviam descoberto os mais importantes filósofos e Doutores da Igreja, meditando e argumentando sobre o conhecimento humano, sobre a natureza de Deus e das coisas, sobre a ordem moral e a consecução do fim último. Com um engenho quase angélico, desenvolveu e acrescentou toda essa quantidade de sabedoria recebida dos que o haviam precedido, e empregou-a para apresentar a doutrina sagrada à mente humana, para ilustrá-la e para dar-lhe firmeza;[5] por isso, a sã razão não pode deixar de tê-la em conta, e a Religião não pode consentir que seja menosprezada. Tanto mais que, se a verdade católica se vê privada da valiosa ajuda que lhe prestam estes princípios, não poderá ser defendida buscando, em vão, elementos nessa outra filosofia que compartilha, ou ao menos não refuta, os princípios em que se apoiam o Materialismo, Monismo, Panteísmo, oSocialismo e as diversas classes de Modernismo. Os pontos mais importantes da filosofia de Santo Tomás não devem ser considerados como algo opinável, que se possa discutir, senão que são como os fundamentos em que se assenta toda a ciência do natural e do divino. Se forem rechaçados estes fundamentos ou se forem pervertidos, seguir-se-á necessariamente que aqueles que estudam as ciências sagradas nem sequer poderão captar o significado das palavras com que o magistério da Igreja expõe os dogmas revelados por Deus.
Por isso quisemos advertir aqueles que se dedicam a ensinar a filosofia e a sagrada teologia de que, se se afastam das pegadas de Santo Tomás, principalmente em questões de metafísica, não será sem graves danos.
Este é Nosso pensamento:
Mas agora dizemos, ademais, que não só não seguem a Santo Tomás mas se apartam totalmente deste Santo Doutor aqueles que interpretam distorcidamente ou contradizem os mais importantes princípios e afirmações de sua filosofia. Se alguma vez Nós ou Nossos antecessores aprovamos com particulares louvores a doutrina de um autor ou de um Santo, se ademais aconselhamos que se divulgasse e se defendesse essa doutrina, é porque foi comprovado que está de acordo com osprincípios de Santo Tomás ou que absolutamente não os contradiz.
Cremos Nosso dever Apostólico expor e mandar tudo isto, para que em assunto de tanta importância todas as pessoas que pertencem tanto ao Clero regular como ao secular considerem seriamente qual é Nosso pensamento e para que o ponham em prática com decisão e diligência. Porão nisto particular empenho os professores de filosofia cristã e de sagrada teologia, que devem ter sempre presente que não será lhes dada a faculdade de ensinar para que exponham a seus alunos as opiniões pessoais que tenham acerca de sua disciplina, senão para que exponham as doutrinas plenamente aprovadas pela Igreja.
Concretamente, no que se refere à sagrada teologia, é Nosso desejo que seu estudo se leve a cabo sempre à luz da filosofia que citamos; nos Seminários, com professores competentes, poderão utilizar-se livros de autores que exponham de maneira resumida as doutrinas tomadas de Santo Tomás; estes livros, quando bem elaborados, são muito úteis.
Utilizar o texto da Suma Teológica
Quando porém se trata de estudar mais profundamente esta disciplina, como se deve fazer nas Universidades, nos Ateneus e em todos os Seminários e Institutos que têm a faculdade de conferir graus acadêmicos, é absolutamente necessário – como sempre se fez e nunca se deve deixar de fazer – que nas aulas se explique com a própria Suma Teológica: os comentários deste livro farão que se compreendam com maior facilidade e que recebam melhor luz os decretos e os documentos que a Igreja docente publica. Nenhum Concílio celebrado posteriormente à santa morte deste Doutor deixou de utilizar sua doutrina. A experiência de tantos séculos põe de manifesto a verdade do que afirmava Nosso Predecessor João XXII: “(Santo Tomás) deu mais luz à Igreja que todos os demais Doutores: com seus livros, um homem aproveita mais em um ano que com a doutrina dos outros em toda a sua vida”.[6] São Pio V voltou a afirmar isto mesmo ao declarar Doutor da Igreja universal a Santo Tomás no dia de sua festa: “A providência de Deus onipotente quis que, desde que o Doutor Angélico foi incluído no elenco dos Santos, por meio da segurança e da verdade de sua doutrina, aparecessem desarticuladas e confundidas muitas das heresias que surgiram, como se pôde comprovar já desde muito tempo e, mais recentemente, no Concílio de Trento; por isso estabelecemos que sua memória seja venerada com maior agradecimento e maior piedade que até agora, pois por seus méritos a terra inteira se vê continuamente livre de erros deletérios”.[7] E, por fazer referência a outros elogios, entre muitos outros que lhe dedicaram Nossos Predecessores, trazemos com muito gosto à colação as palavras de Bento XIV, cheias de elogios a todos os escritos de Santo Tomás, particularmente à Suma Teológica:“Muitos Romanos Pontífices, predecessores Nossos, honraram sua doutrina (a de Santo Tomás) como Nós mesmos fizemos nos diferentes livros que escrevemos, depois de estudar e de assimilar com afinco a doutrina do Doutor Angélico, e sempre Nós aderimos com gosto a ela, confessando com toda a sensatez que, se há algo bom nestes livros, não se deve de nenhum modo a Nós, senão que se há de atribuir ao Mestre”.[8]
Assim, “para que a genuína e íntegra doutrina de Santo Tomás floresça na instrução, no que teremos grande empenho”, e para que desapareça “a maneira de ensinar que tem como ponto de apoio a autoridade e o capricho de cada mestre” e que, por isso mesmo, “tem fundamento instável, que dá origem a opiniões diversas e contraditórias… não sem grave dano para a ciência cristã”,[9] queremos, mandamos e preceituamos que aqueles que se entregam à instrução da sagrada teologia nas Universidades, nos Liceus, nos Colégios, nos Seminários, nos Institutos que por indulto apostólico tenham a faculdade de conferir graus acadêmicos, utilizem comotexto para suas lições a Suma Teológica de Santo Tomás, e que exponham as lições na língua latina; e deverão levar a efeito esta tarefa pondo interesse em que os ouvintes se afeiçoem a este estudo.
Isto já se faz em muitos Institutos, e é de louvar; também foi desejo dos Fundadores das Ordens Religiosas que em suas casas de formação assim se fizesse, com a decidida aprovação de Nossos Predecessores; e os homens santos posteriores a Santo Tomás de Aquino não tiveram outro supremo mestre na doutrina que Tomás. Desta forma, e não de outra, não só se conseguirá restituir à teologia sua primigênia categoria, senão que também às demais disciplinas sagradas se lhes conferirá a importância que cada uma tem, e todas rejuvenescerão.
Medidas disciplinares
Por tudo isso, sucessivamente, não se concederá a nenhum Instituto a faculdade de conferir graus acadêmicos na sagrada teologia se não se cumpre fielmente o que nesta carta prescrevemos. Os Institutos ou as Faculdades, as Ordens e as Congregações Religiosas que já tem legitimamente a faculdade de outorgar graus acadêmicos ou outros títulos em teologia, ainda que somente dentro da própria instituição, serão privados dessa faculdade ou a perderão se, no prazo de três anos, não se adaptarem escrupulosamente a estas prescrições Nossas, ainda quando não possam cumpri-lo sem culpa alguma de sua parte.
Estabelecemos tudo isto, sem que nada obste em contrário.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de junho de 1914, ano undécimo de Nosso Pontificado.
PIO PAPA X
NOTAS
(1) Opúsculo contra impugnantes Dei cultum et religionem, c. III.
(2) Contra Gentiles, II, c. III y II..
(3)  Ibidem. c. III; y 1, 9. XII, a 4; y 9 LIV, a I.
(4) Decretal II Damnamus ergo, etc. Cfr. Santo Tomás. Questiones disputadas “De scientia Dei”, art. 11.
(5) Boecio. De Trinitate, 9. II, art. 3.
(6)  Alocução no Consistório, 1318.
(7)  Bula Mirabilis Deus, 11/4/1557.
(8) Actas Cop. Gen. O.P., tomo IX, p. 196.
(9) Leão XIII, Carta Qui te, 19/6/1886.

Download Católico

Carta do Além (Testemunho verídico)

carta-do-alem-testemunho-veridico

Impressionante relato de uma alma condenada ao Inferno

Este opúsculo é a transcrição fiel de outro opúsculo intitulado Carta do Além, outrora impresso por Artes Gráficas Armando Basílio (Rua Júlia Lopes de Almeida, 16 – RJ) e distribuído pela Livraria Clássica Brasileira (Rua 1º de Março, 147, 2º andar – RJ), e que traz no verso de sua primeira capa estes assentamentos: “Imprimatur do original alemão: Brief aus dem Jeneseits: Treves, 9/11/1953. N. 4/53. Aprovação eclesiástica deste opúsculo: Taubaté – Est. De São Paulo – 2/11/1955”.

Prefácio

Com os homens Deus se comunica por muitos modos. Além de ser a própria Sagrada Escritura a Carta Magna de Deus aos seus homens, escrita e transmitida por homens autorizados, narra ela muitas comunicações divinas feitas por visões, inclusive sonhos. Deus continua a prevenir, ainda, por sonhos. É que sonhos não são sempre meros sonhos sem base.

A Carta do Além transcrita abaixo conta a história da condenação eterna de uma jovem. À primeira vista, parece uma história bastante romanceada. Bem consideradas, porém, as circunstâncias, chega-se à conclusão de que ela não deixa de ter o seu fundo histórico como base do seu sentido moral e do seu alcance transcendental.
A carta em apreço foi encontrada tal qual entre os papéis de uma freira falecida, amiga da jovem condenada. Relata a freira os acontecimentos da existência da companheira, como fatos históricos sabidos e verificados, e sua sorte eterna comunicada em sonho. A cúria diocesana de Treves (Alemanha) autorizou sua publicação como sumamente instrutiva.

A Carta do Além apareceu primeiro em livro de revelações e profecias, juntamente com outras narrações. Foi o Revmo. Padre Bernhardin Krempel, C. P., Doutor em Teologia, quem a publicou em separado e quem lhe emprestou mais autoridade, provando-lhe, nas notas de pé-de-página, a absoluta concordância com a doutrina da Igreja Católica sobre o assunto.

No Apêndice seguem alguns esclarecimentos complementares sobre o inferno. O primeiro assinala dois trabalhos literários que por caminhos diferentes chegam à mesma conclusão: que o Inferno deve existir e que de fato existe. Em seguida expõe-se sumariamente quais são os que trilham o caminho do inferno e quais os meios que temos à mão para nos salvar do maior perigo da vida, de cair no inferno. Assim termina o opúsculo menos alarmante e mais conciliatório.

O tradutor.

Informações Preliminares

Entre os papéis deixados por uma jovem que morreu num convento como freira, foi encontrado o seguinte depoimento:

“Tinha eu uma amiga. Quer dizer, éramos mutuamente achegadas como companheiras e vizinhas de trabalho no mesmo escritório M. Quando mais tarde Âni se casou nunca mais a vi. Desde que nos conhecemos, reinava entre nós, no fundo, mais amabilidade que amizade. Por isso eu sentia dela pouca falta, quando, após seu casamento, ela foi morar no bairro elegante das vilas, bem longe do meu casebre.

Quando no outono de 1937 passei minhas féria no lago Garda, minha mãe escreveu-me, em meados de setembro: “Imagine, Âni N. morreu. Num desastre de automóvel perdeu a vida. Ontem foi enterrada no cemitério do Mato”.

Essa notícia espantou-me. Sabia eu que Âni nunca fora propriamente religiosa. Estava ela preparada, quando Deus a chamou de repente?
 
Na  outra manhã assisti na capela da casa do pensionato das Irmãs, onde eu morava à santa Missa em sua intenção. Rezava fervorosamente por seu descanso eterno e nessa mesma intenção ofereci também a santa Comunhão. Mas o dia todo eu sentia certo mal estar, que foi aumentando mais ainda pela tarde.

Dormia inquieta. Acordei de repente, ouvindo como que sacudida a porta do quarto. Liguei a luz. O relógio, no criado-mudo, marcava meia noite e dez minutos. Nada, porém, eu podia ver. Nenhum barulho havia na casa. Apenas as ondas do lago Garda batiam, quebrando-se monotonamente, no muro do jardim do pensionato. De vento, nada eu ouvia. Tinha eu, todavia, a impressão de que ao acordar eu tivesse percebido, além das batidas na porta, um ruído como que de vento, parecido ao do meu chefe de escritório, quando mal humorado me atirava uma carta amolante sobre a escrivaninha.

Refleti um momento, se devia levantar-me.

Ah! Tudo não passa de cisma, disse-me resoluta. Não é senão produto de minha fantasia sobressaltada pela notícia da morte. Virei-me, rezei alguns Pai-nossos pelas almas, e adormeci de novo.

Sonhei então que me levantava de manhã às 6 horas, indo à capela da casa. Quando abri a porta do quarto, dei com um maço de folhas de carta. Levantá-las, reconhecer a escrita de Âni e dar um grito, foi coisa de um segundo.

Tremendo, segurei as folhas nas mãos. Confesso que fiquei tão apavorada, que nem podia proferir o Pai nosso. Fiquei presa de uma quase sufocação. Nada melhor que fugir dali e ir-me para o ar livre. Arranjei malmente os cabelos, pus a carta na bolsa e saí à pressa de casa.

Fora, subi o caminho que seguia tortuoso para cima, por entre oliveiras, loureiros e quintas de vilas, e para além da mundialmente célebre estrada Gardesana.

A manhã despontava radiante. Nos outros dias eu parava a cada cem passos, encantada pela magnífica vista que me ofereciam o lago e a magnificamente bela ilha Garda. O suavíssimo azul da água refrescava-me; e como uma criança olha admirada para a avó, assim eu olhava sempre admirada de novo o cinzento monte Baldo que se ergue na margem oposta do lago, crescendo de64 m acima do nível do mar até2.200 m de altura.

Hoje eu não tinha olhos para tudo isso. Depois de caminhado um quarto de hora, deixei-me cair maquinalmente sobre um banco encostado em dois ciprestes, onde, no dia anterior, eu tinha lido prazerosamente A donzela Teresa. Pela primeira vez eu via nos ciprestes símbolos da morte, coisa que neles nunca reparava no Sul, onde tão frequentemente se encontram.

Peguei a carta. Faltava-lhe a assinatura. Sem a mínima dúvida era a escrita de Âni. Nem mesmo faltavam nela o grande “S” em voluta, nem o “T” francês,a que se havia acostumado no escritório para irritar o Sr. G.

O estilo não era dela. Pelo menos não falava como de costume. Sabia ela tão amavelmente conversar e rir com seus olhos azuis e seu grandioso nariz!

Somente quando discutíamos assuntos religiosos é que ela se tornava mordaz e caía no rude tom da carta. ( Eu própria entrei agora na excitada cadência da mesma).

Eis aí a Carta do Além de Âni V., palavra por palavra, tal qual a li no sonho:

CARTA DO ALÉM

Clara! Não rezes por mim. Sou condenada. Se te comunico isso e se a respeito de algumas circunstâncias da minha condenação te dou pormenorizadas informações, não creias que eu o faça por amizade. Aqui não amamos a ninguém mais. Faço-o, como “parcela daquele poder que sempre quer o Mal e sempre produz o Bem”.

Em verdade, eu queria também ver-te aqui, onde eu para sempre vim parar. (1)

Não estranhes esta minha intenção. Aqui pensamos todos da mesma forma. A nossa vontade está petrificada no mal – no que vós chamais “mal”. Mesmo quando fazemos algo de “bem”, como eu agora, descerrando-te os olhos sobre o Inferno, não o fazemos com boa intenção. (2)

Lembra-te ainda:

1)São TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologica. Suplementtum, q.98,a 4.: “Os réprobos querem que todos os bons sejam condenados”.

2)S. Th. Suppl., q98, a1: “Neles o autodeterminado querer é sempre de todo perverso”.

Faz quatro anos que nos conhecemos, em M. Tinhas 23 anos e já trabalhavas no escritório havia meio ano, quando lá entrei. Tiravas-me bastantes vezes de embaraços, davas-me a mim, principiante, frequentes bons avisos. Mas que é que se chama de “bom”!

Eu louvava, então, tua “caridade”. Ridículo… Tuas ajudas provinham de pura ostentação, como, aliás, eu já suspeitava.

Nós aqui não reconhecemos bem algum em ninguém!

Conheceste minha mocidade. Cumpre preencher, aqui, certas lacunas.

Conforme o plano de meus pais, eu não devia nunca haver existido. Aconteceu-lhes um descuido, a desgraça da minha concepção.

Minhas duas irmãs já tinham 15 e 14 anos, quando eu vim à luz.

Oxalá nunca eu tivesse nascido! Oxalá pudesse eu agora aniquilar-me, fugia a esses tormentos! Não há volúpia comparável à acabar minha existência, como se reduz a cinzas um vestido, sem mesmo deixar vestígios. (3) Mas é preciso que eu exista; é preciso que eu seja tal como eu me tenho feito: com a falha total da finalidade da minha existência.

(3) S. Th. Suppl. Q98, a3, r. íb. Ad 3: “Enquanto a inexistência liberta de uma vida de terríveis castigos, seria ela para os condenados um bem maior do que sua miserável existência… Assim desejam a não existência.

Quando meus pais, ainda solteiros, mudaram-se da roça para a cidade, perderam o contato com a Igreja.

Assim era melhor.

Mantinham relações com pessoas desligadas da religião. Conheceram-se num baile e viram-se “obrigados” a casar meio ano depois.

No ato do casamento pegaram neles só algumas gotas de água benta, suficientes apenas para atrair mamãe à Missa domingueira raríssimas vezes por ano.

Nunca ela me ensinava a rezar direito. Esgotava-se nos cuidados de cada dia, ainda que a nossa situação não fosse ruim.

Semelhantes palavras como rezar, missa, água benta, igreja, só escrevo com íntima repugnância, com incomparável nojo. Detesto profundamente os frequentadores da igreja, assim como todos os homens e coisas em geral.

Tudo se nos torna tormento. Cada conhecimento recebido ao falecer, cada lembrança da vida e do que sabemos, se transforma numa flama incandescente. (4)

E todas essas lembranças nos mostram aquele medonho lado que fora uma graça que desprezamos. Como isso atormenta!Não comemos, não dormimos, nem andamos com as pernas. Espiritualmente acorrentados, nós réprobos, fitamos estarrecidos a nossa vida falhada, uivando e rangendo os dentes, atormentados e cheios de ódio.

Ouves tu? Bebemos aqui ódio como água. Odiamo-nos mutuamente. (5)

Mais do que tudo, odiamos a Deus. Procuro tornar-te isso compreensível.

Os bem-aventurados no Céu devem amá-Lo, porque O veem desveladamente em sua arrebatadora beleza. Isso torna-os indescritivelmente felizes. Sabemos isso e é esse conhecimento que nos torna furiosos. (6)

Os homens, na Terra, que conhecem Deus pela criação e revelação, podem amá-lo; não são forçados a fazê-lo.

O crente – furiosa eu te digo aqui – que contempla, meditando, Cristo estendido na cruz, O amará.

Mas a alma de quem Deus se acerca, fulminante, como vingador e justiceiro, como Quem foi repelido, essa O odeia, como nós O odiamos. (7) Odeia-O com toda a força de sua má vontade. Odeia-O eternamente. Em virtude da deliberada resolução de ficar afastada de Deus, com que terminou a vida terrena. E essa perversa vontade, não podemos revogá-la mais nem jamais quereremos revogá-la.

4)S. Th., q98, a7, r.: “Nada há nos réprobos que não lhes seja matéria e causa de tristeza. … Assim dirigindo sua atenção sobre coisas conhecidas”.

5)S. Th., q98, a4, r: “Nos réprobos domina um ódio total”.

6)S. Th., q98, a9, r.: “Antes do dia do juízo universal sabem os réprobos que os bem-aventurados se encontram numa inefável glória.”

7)S. Th., q98, a8, ad 1, ib a 5, r: “Os réprobos só enxergam em Deus o castigador e impedidor (do mal, que desejam ainda fazer). Mas como só O enxergam no castigo, efeito da sua justiça, odeiam-nO.

Forçada acrescento que Deus é propriamente ainda misericordioso para conosco. Disse “forçada”. A razão é esta: ainda que voluntariamente escrevo esta carta, não me é possível mentir, como eu bem queria. Assento no papel muitas informações contrariamente à minha vontade. Também a corrente de injúrias que queria despejar, tenho de reenguli-la.

Deus era misericordioso para conosco pelo que não deixou a nossa vontade produzir e efetivar na Terra todo o mal que desejávamos fazer. Se Ele nos tivesse deixado a esmo, teríamos aumentado muito a nossa culpa e castigo. Deixou-nos morrer prematuramente – como a mim – ou introduziu circunstâncias atenuantes.

Agora Ele Se nos torna misericordioso porque não nos obriga a nos aproximar dEle, porém a ficarmos neste lugar distante do Inferno, diminuindo-nos o tormento. (8)

8) S. th. I, q21, a4, ad 1: “Na condenação dos réprobos aparece a misericórdia de Deus…, no que os castiga menos do que merecem”. _ Em outro lugar nota o santo Doutor da Igreja, que isso é o caso sobretudo com os que neste Mundo eram misericordiosos para com os outros (q 99,a 5, ad 1).

Cada passo mais perto de Deus dar-me-ia maior sofrimento do que a ti um passo mais perto de uma fogueira.

Ficaste espantada um dia quando te contei, em passeio, o que meu pai dissera alguns dias antes da minha primeira comunhão:

“Cuida, Anita, que ganhes bonito vestido; o mais não passa de burla”.

Quase me teria mesmo envergonhado do teu espanto. Agora rio-me disso. O mais bem feito, em toda essa burla, era permitir-se a comunhão apenas aos doze anos. Eu já estava, então, assaz possuída do prazer do mundo, e não levei a comunhão a sério.

O novo costume de deixar as crianças receberem a comunhão aos sete anos põe-nos furiosos. Envidamos todos os meios para burlar isso, fazendo crer que para comungar cumpre haver compreensão. É preciso que as crianças já tenham cometido antes alguns pecados mortais. O “branco” Deus será menos prejudicial, então, do que recebido quando a fé, a esperança e o amor, frutos do batismo – escarro sobre tudo isso! – ainda estão vivos no coração da criança.

Lembras-te que já sustentei esse mesmo ponto de vista na Terra?

Torno a meu pai. Ele brigava muito com minha mãe. Raras vezes te frisei isso: tinha vergonha. Ah! Que é vergonha? Coisa ridícula! A nós tudo nos é indiferente.

Meus pais não dormiam mais no mesmo quarto. Eu dormia com minha mãe, papai no quarto ao nosso lado, aonde podia voltar a qualquer hora da noite. Ele bebia muito e gastou a nossa fortuna. Minhas irmãs estavam empregadas e precisavam do seu próprio dinheiro, como diziam. Mamãe começou a trabalhar. No último ano de sua amargurada vida, papai batia em mamãe muitas vezes, quando não lhe queria dar dinheiro. Para mim ele era sempre bonzinho. Um dia, contei-te isso e ficaste escandalizada sobre o meu capricho – e de que não te escandalizaste em mim? – um dia, pois devolveu duas vezes sapatos novos, porque a forma dos saltos não me era bastante moderna. (9)

(9) Os assinalados traços sobre o pai de Âni e as ocorrências subsequentes são fatos.

Na noite em que uma apoplexia vitimou meu pai mortalmente, aconteceu algo que nunca te confiei, por temer desagradável interpretação de tua parte. Hoje, porém, deves sabê-lo. Esse fato é memorável, porque foi pela primeira vez que o meu atual espírito carrasco se acercou em mim.

Eu dormia no quarto de minha mãe. Suas respirações regulares denotavam seu profundo sono.

De repente ouvi chamar meu nome. Uma voz desconhecida murmurou: “Que acontecerá, se teu pai morrer?”

Eu não amava mais meu pai, desde que ele começara a maltratar minha mãe. Já não amava propriamente ninguém; só me prendia a alguns que eram bons para mim. – Amor sem intuito natural existe quase só nas almas que vivem em estado de graça. Nele eu não vivia.

Respondi assim ao misterioso interlocutor:

“Com certeza ele não morre”.

Após breve intervalo, ouvi a mesma bem compreendida pergunta, sem me incomodar de saber de onde provinha.

“Qual o quê! Ele não está morrendo”, escapou-me casmurra.

Pela terceira vez fui interrogada: “Que acontecerá se teu pai morre?”

– De relance me surgiu no espírito como meu pai frequentes vezes voltava para casa meio bêbado, ralhando e brigando com mamãe e quanto ele nos envergonhava perante os vizinhos e conhecidos!

Gritei, então, embirrada:

“Pois não, é quanto merece! Que morra!”

Depois, tudo ficou quedo.

Na manhã seguinte, quando mamãe foi arrumar o quarto de papai, encontrou a porta fechada. Ao meio dia abriram-na à força. Papai encontrava-se meio vestido em cima da cama – morto, um cadáver. Ao procurar cerveja na adega, deve se ter resfriado. Desde muito, estava adoentado.

(Será que Deus fez depender da vontade de uma criança, a quem o homem demonstrava bondade, o conceder-lhe mais tempo e ocasião para se converter?)

Marta K. e tu me fizeste ingressar na associação das moças. Nunca te escondi que achava as instruções das duas diretoras, das senhoras X., assaz vigaristas. Achava os jogos bastantes divertidos. Conforme sabes, cheguei, em breve, a sustentar neles papel preponderante. Isso era o que me lisonjeava. Também as excursões me agradavam. Deixei-me até levar algumas vezes a confessar-me e comungar. Propriamente não tinha nada para confessar. Pensamentos e sentimentos comigo não entravam em conta. Para coisas piores eu não estava madura ainda.

Admoestaste-me um dia: “Âni, se não rezares mais, perder-te-ás”. Eu rezavas realmente muito pouco; e também só contrariada, de má vontade.

Tinhas tu, sem dúvida, razão. Todos os que no Inferno ardem, não rezaram, ou não rezaram bastante. A oração é o primeiro passo para Deus. Sempre decisivo. Mormente a oração para Aquela que é Mãe de Cristo, cujo nome não nos é lícito pronunciar. A devoção a Ela arranca ao demônio inúmeras almas, que os pecados lhe teriam infalivelmente atirado às mãos.

Furiosa continuo, por ser forçada: rezar é o mais fácil que se pode fazer na Terra. Justamente a esse facilismo Deus ligou a salvação.

A quem reza com assiduidade, Deus dá, paulatinamente, tanta luz e fortalece-o tanto que o mais afogado bode de pecador se pode definitivamente levantar pela oração, ainda que esteja submerso na lama até o pescoço.

Nos últimos anos da vida eu deveras não rezava mais e assim me privava das graças, sem as quais ninguém se pode salvar.

Aqui não recebemos mais graça alguma. Mesmo que a recebêssemos, com escárnio a rejeitaríamos. Todas as vacilações da existência terrestre acabaram no além.

Na vida terrena pode o homem passar do estado de pecado para o estado de graça. Da graça pode cair no pecado. Frequentes vezes caí por fraqueza; raramente por maldade. Com a morte, terminou essa inconstância do sim e do não, caindo e levantando-se. Pela morte, cada um entra no estado final, fixo e inalterável.

À medida que avança a idade, tornam-se menores os saltos. É verdade que, até à morte, a gente se pode converter a Deus ou virar-Lhes as costas. No morrer se decide o homem, entretanto, com as últimas tremuras da vontade, maquinalmente, tal como se acostumara na vida.

Bom ou mau hábito tornou-se uma segunda natureza. Esta o arrasta no derradeiro momento. Assim também arrastou a mim. Anos inteiros eu vivera afastada de Deus. Consequentemente, decidi-me no último chamamento da graça, contra Deus. Não que o haver pecado muitas vezes me fosse uma fatalidade, mas porque eu não me queria mais levantar.

Repetidas vezes me admoestaste a assistir à pregação e a ler livros devotos. Eu escusava-me regularmente com a falta de tempo. Havia eu de aumentar ainda mais a minha incerteza íntima?

Cumpre-me, aliás, firmar:

Quando cheguei a esse ponto crítico, pouco antes de minha saída da associação das moças, ter-me-ia sido muito difícil enveredar por outro caminho. Sentia-me insegura e infeliz. Diante da minha conversão, levantou-se um paredão. Deves tê-lo despercebido. Tu o tinhas imaginado tão fácil, quando uma vez me disseste: “Faz, pois, uma boa confissão, Âni, e tudo ficará bem”.

Eu suspeitava que assim fosse. Mas o mundo, o demônio e a carne já me segurava nas suas garras.

Na atuação do demônio eu não acreditava nunca. Agora atesto que, a pessoas como eu então era, o demônio influencia poderosamente. (10)

10) A influência dos maus espíritos encerra-se nos apelidos “demônio” ou “diabo”. Com comprovação da sua existência bastam dois textos da Sagrada Escritura: “Irmãos, sede sóbrios e vigiai! Vosso inimigo, o demônio, anda por aí como um leão rugindo e procurando a quem puder devorar” ( 1Pd, 5, 8). O rugir não se refere a que satanás faça muito alarme com suas tentações, porém à avidez com que ele nos procura perder. S. Paulo escreve aos Efésios (8, 12): “Ponde a armadura de Deus, para que possais resistir às astúcias do demônio. Nossa luta não é contra carne e sangue (homens), porém contra os poderes dos tenebrosos dominadores deste Mundo e contra os maus espíritos dos ares”.

Só muitas orações alheias e as minhas próprias, juntamente com sacrifícios e sofrimentos, teriam conseguido arrancar-me dele. E isso deveras só paulatinamente. Poucos possessos há corporalmente, porém tanto mais e inúmeros há interiormente possessos. O demônio não pode tirar o livre arbítrio àqueles que se entregam à sua influência. Contudo, como castigo de sua apostasia quase total de Deus, este permite que o “mal” neles se aninhe.

Odeio também o demônio. Todavia gosto dele, porque ele procura perder-vos: ele e seus auxiliares, os anjos caídos com ele desde os princípios do tempo. Há miríades. Vagueiam pela Terra inúmeros como enxames de moscas, sem que sejam suspeitados.

A nós, réprobos, não nos incumbe de vos tentar; isso cabe aos espíritos caídos. (11)

Aumentam, sim, ainda mais os seus tormentos toda vez que arrastam uma alma humana ao Inferno. Mas de que não é capaz o ódio! (12)

11) S. Th. Suppl., q.98, a 6, ad 3,: “Não é tarefa dos homens condenados perderem e tentarem outros, porém dos demônios”.

12) S. Th. Suppl., q98, a4, ad 3: “O crescente número dos réprobos aumenta ainda os sofrimentos de todos. Mas são de tal modo cheios de ódio e inveja, que antes querem sofrer mais com muitos, do que menos sozinhos”.

Ainda que eu andasse por veredas tortuosas, Deus me procurava. Eu preparava o caminha à graça, por serviços de caridade natural, que por inclinação de minha índole, não raras vezes prestava.

Às vezes atraía-me Deus para uma igreja. Lá eu sentia certa nostalgia. Quando cuidava da minha mãe doente, apesar do meu trabalho no escritório durante o dia, e sacrificava-me realmente um tanto, atuavam sobre mim poderosamente essas atrações de Deus.

Uma vez – foi na capela do hospital, aonde me levaste no tempo livre de meio dia – fiquei tão impressionada, que me encontrei a um passo apenas da minha conversão. Eu chorava. Em seguida, porém, vinha o prazer do mundo derramar-se, como uma torrente, por sobre a graça. Os espinhos afogaram o trigo. Com a explicação de que religião é sentimentalismo, conforme sempre se dizia no escritório, lancei também essa graça, como outras, debaixo da mesa.

Repreendeste-me um dia que, em vez de genuflexão, fiz numa igreja uma ligeira inclinação da cabeça. Tomaste isso como preguiça e não parecias suspeitar de que, já então, não acreditava mais na presença de Cristo no Sacramento. Agora creio nela, porém só naturalmente, como se acredita em tempestade, cujos sinais e efeitos se percebem.

Nesse ínterim, havia-me arranjado, eu própria, uma religião. Agradou-me a opinião generalizada no escritório, de que, após a morte, a alma voltaria para este Mundo em outro ser e passaria por outros e mais outros seres, numa sucessão sem fim. Com isso liquidei o angustiante problema do além e imaginava tê-lo tornado inofensivo.

Por que não me lembraste a parábola do gozador rico e do pobre Lázaro, em que o narrador, Cristo, imediatamente após a morte, mandou um para o Inferno, o outro para o Paraíso? Mas o que terias conseguido? Nada mais do que com tuas demais palavras beatas.

Aos poucos eu própria arranjei um deus: bem privilegiado para se chamar deus; de mim bastante longe para não me obrigar a relações com ele; assaz confuso, para se transformar, à vontade e sem mudar de religião, num deus panteístico ou até tornar-me orgulhosa deísta.

Esse “deus” não tinha um céu para me galardoar nem inferno para amedrontar-me. Deixei-o em paz. Nisso consistia a minha adoração a ele.

No que se ama, acredita-se facilmente. No curso dos anos tinha-me eu assaz persuadido da minha religião. Vivia-se bem com ela, sem que ela me incomodasse.

Só uma coisa me teria quebrado a nuca: uma dor profunda, prolongada. Mas este sofrimento não veio. Compreende agora: “A quem Deus ama, Ele castiga”?

Era num dia de verão, em julho, quando a associação das moças organizava uma excursão. Gostava eu, sim das excursões. Mas não das beatarias anexas!

Outra imagem, diferente da de Nossa Senhora das Graças de A estava, desde pouco, no altar do meu coração. O grã-fino Max N. do armazém ao lado. Pouco antes conversáramos divertidamente algumas vezes. Convidara-me, nessa ocasião, para fazermos uma excursão naquele mesmo domingo. A outra com que costumava andar, estava no hospital.

Reparara, sim, que eu tinha deitado um olhar sobre ele. Mas eu não pensava ainda em casar-me com ele. Era rico, porém amável demais para com muitas e quaisquer mocinhas; até então eu queria um homem que me pertencesse exclusivamente, como única mulher. Certa distância sempre me era própria.

(Isso é verdade. Com toda a sua indiferença religiosa, Âni tinha algo de nobre em seu ser. Espanto-me de que também pessoas “honestas” possam cair no Inferno, se são assaz desonestas para fugirem do encontro com Deus)

Nessa excursão, Max cumulou-me de todas as amabilidades. Conversações de beatas é que não tivemos, como vocês. No outro dia, no escritório, repreendeste-me porque não vos acompanhei até A .Contei-te os meus divertimentos domingueiros.

Tua primeira pergunta foi: “Estiveste na Missa?” .Louca! Como podia assistir à Missa, desde que combinamos a saída para 6 horas! Lembras-te, ainda, que juntei, excitada: “O bom Deus não é tão mesquinho como os vossos padrecos!”? Agora, cumpre-me confessar-te que, apesar de sua infinita bondade, Deus toma tudo mais a sério do que os padres.

Após esse primeiro passeio com Max, assisti mais uma só vez à vossa reunião. Na solenidade de Natal. Certas coisas me atraíam. Mas interiormente, já estava apartada de vós.

Cinemas, bailes, excursões, seguiam-se. Brigávamos às vezes, Max e eu, mas eu sabia prendê-lo sempre a mim.

Mui desagradável me foi a rival que, de volta do hospital, se comportava como furiosa. Propriamente a meu favor. Minha calma distinta causou grande impressão a Max e obrigou-lhe, afinal, a decisão de me preferir.

Eu sabia denegri-la, rebaixá-la. Falando com calma: por fora, realidades objetivas; por dentro, atirando peçonha. Semelhantes sentimentos e insinuações conduzem rapidamente ao Inferno. São diabólicos, no verdadeiro sentido da palavra.

Por que te conto isso? Para constar como fiquei definitivamente livre de Deus.

Para esse afastamento não foi preciso que eu chegasse com Max muitas vezes às últimas familiaridades. Compreendi que me rebaixaria aos seus olhos, se me deixasse esvaziar antes do tempo. Por isso me continha.

Realmente estava eu sempre pronta para tudo que achava útil. Cumpria-me conquistar Max. Para isso nada achava caro demais. Amamo-nos aos poucos, pois que ambos possuíamos valiosas qualidades que podíamos apreciar mutuamente. Fui talentosa e tornei-me hábil e conversadora. Cheguei, assim, a prender Max nas mãos, segura de que o possuía sozinha, pelo menos nos últimos meses antes do casamento.

Nisso consistia minha apostasia de Deus, em fazer uma criatura o meu deus. Em coisa alguma pode isso realizar-se tão plenamente como entre pessoas de diferente sexo, se o amor se afoga na matéria. Isso torna-se seu encanto, seu aguilhão e seu veneno. A “adoração” que eu me prestava a Max, tornou-se-me uma religião vivida.

Era no tempo quando, no escritório, tão virulentamente eu caía em cima das corridas à igreja, dos padrecos, do murmurejar de rosários e das demais bugigangas.

Empenhaste-te, mais ou menos inteligentemente, em proteger tudo isso; aparentemente sem suspeitares de que para mim, em última análise, não se tratava dessas coisas, mas propriamente de ponto de apoio contra minha consciência que eu estava procurando – dele eu precisava ainda – para justificar racionalmente a minha apostasia.

No fundo eu vivia revoltada contra Deus. Tu não percebias isso. Sempre me consideravas ainda católica. Com tal, queria eu também ser chamada; até mesmo pagava a contribuição para a igreja. Certa “ressalva” não me podia fazer mal, pensava eu.

Por mim certas que às vezes fossem tuas respostas, de mim ressaltavam, porque tu não devias ter razão. Em face dessas nossas relações entrecortadas, a dor da nossa separação era pequena, quando meu casamento nos distanciou.

Antes do meu casamento, confessei-me e comunguei mais essa vez. Era uma formalidade. Meu homem pensava como eu. De resto, por que não haveríamos de satisfazê-la? Cumprimo-la como qualquer outra formalidade.

Vós o chamais “indigno”. Após aquela “indigna” comunhão eu tinha mais sossego de consciência. Era essa a última.

Nossa vida matrimonial decorria, em geral, em boa harmonia. Em quase todo os pontos tínhamos a mesma opinião. Também nisso: não nos queríamos impor o encargo de filhos. No fundo, meu marido desejava ter um – naturalmente não mais. Eu soube arrancar-lhe, finalmente, essa idéia. Eu gostava mais de vestidos e mobílias finas, de tertúlias de chá, de passeios de automóvel e de semelhantes divertimentos.

Era um ano de prazeres terrenos entre o casamento e minha repentina morte.

Cada domingo passeávamos de automóvel ou visitávamos parentes de meu esposo – de minha mãe eu me envergonhava então. Esses nadavam bem, como nós, na superfície da existência.

Interiormente, porém, nunca me sentia deveras feliz. Algo roía-me sempre na alma. Eu desejava que pela morte, a qual sem dúvida havia de demorar muito tempo ainda, tudo acabasse.

Mas é como em criança eu ouvira uma vez falar, em sermão, que Deus recompensa já neste mundo o bem que alguém pratica. Se não pode recompensá-lo no outro mundo, fá-lo na Terra.

Sem o esperar, recebi uma herança (da tia Lote). Meu marido teve a sorte de ver seu salário consideravelmente aumentado. Assim pude instalar mimosamente a nossa casa nova.

Minha religião estava nas últimas, como um vislumbre do ocaso no firmamento longínquo. Os bares e cafés da cidade e os restaurantes por onde passávamos nas viagens, não nos aproximaram de Deus.

Todos os que lá frequentavam, viviam como nós: de fora para dentro, não de dentro para fora.

Visitando uma célebre catedral, nas viagens de férias, procurávamos deleitar-nos com o valor artístico de obras primas. O sopro religioso que irradiam, mormente as da Idade Média, eu sabia neutralizá-lo, escandalizando-me em qualquer circunstância da visita. Assim, a um irmão leigo que nos conduzia, eu criticava o comércio de piedosos monges que fabricavam e vendiam licor; criticava as eternas badaladas de sinos chamando para igrejas, onde trata apenas de dinheiro.

Assim eu conseguia afastar de mim a graça, cada vez que me batia à porta.

Mormente deixava meu mau humor derramar-se livremente sobre tudo que tratava de antigas representações do inferno em livros, cemitérios e outros lugares, onde se viam demônios fritarem as almas em fogo vermelho ou amarelo, e seus sócios, de cauda comprida, trazerem-lhe mais e mais vítimas.

Clara, o Inferno pode ser mal desenhado, porém nunca ser exagerado.

Sobretudo escarnecia eu sempre do fogo do Inferno. Lembras-te como numa conversa sobre isso eu te meti um fósforo aceso debaixo do nariz burlando: “É assim que cheira!”?

Tu apagaste tão logo a chama. Aqui ninguém a extingue. – Digo-te mais: o fogo de que fala a Bíblia, não significa tormento de consciência. Fogo significa fogo. Cumpre entendê-lo em sentido real, quando Aquele declarou: “Afastai-vos de Mim, malditos, ide para o fogo eterno”. Literalmente!

– Como pode o espírito ser tocado pelo fogo material? Perguntas.

– Como então pode, na Terra, tua alma sofrer, segurando teu dedo na chama?

– Tua alma também não se queima, mas que dor tem de aturar o homem todo!

Semelhantemente estamos nós aqui presos ao fogo em nosso ser e em nossas faculdades. Nossa alma fica privada do seu voo natural; não podemos pensar nem querer o que queremos. (13)

13) S. Th. Suppl., q70, a3, r.: “O fogo do Inferno atormenta o espírito pelo que o impede de executar o que quer; não pode atuar onde quer e quanto quer.”

Não procures esclarecer o mistério contrário às leis da natureza material: o fogo do Inferno queima sem consumir.

O nosso maior tormento consiste em que sabemos exatamente que nunca veremos Deus.

Quanto pode torturar o que na Terra nos era indiferente! – Enquanto a faca está em cima da mesa, deixa-te fria. Vês-lhe o fio, porém não o sentes. Mas entra a faca na carne e gritarás de dor.

Agora sentimos a perda de Deus; antes só a víamos. 14

14) “A separação de Deus é um tormento tão grande como Deus” (frase atribuída a Santo Agostinho, Cf.Houdry, Bibliotheca concionatorum, Veneza, 1786, vol. 2, sob Infernus, #4, p. 427).

Todas as almas não sofrem igualmente. Quanto mais frívolo, maldoso e decidido alguém foi no pecar, tanto mais lhe pesa a perda de Deus, e tanto mais torturado se sente pela criatura abusada.

Os católicos condenados sofrem mais do que os de outra crença, porque receberam e desaproveitaram, em geral, mais luzes e mais graças.

Quem sabia mais, sofre mais do que aquele que menos conhecimentos tinha.

Quem pecou por maldade sofre mais do que aquele que caiu por fraqueza.

Mas nenhum sofre mais do que mereceu. Oxalá isso não fosse verdade, para que eu tivesse motivo para odiar!

Tu me disseste um dia: ninguém cai no Inferno sem que o saiba. Foi isso revelado a uma santa. Ria eu disso, no entanto me entrincheirava atrás desta reflexão: nesse caso me ficaria suficiente tempo para me converter – assim eu pensava no íntimo.

O enunciado calha. Antes do meu fim repentino, decerto não conhecia o Inferno tal qual é. Nenhum entre humano o conhece. Mas eu estava exatamente inteirada disso: Se tu morreres, entrarás na eternidade como revoltada contra Deus. Suportarás as consequências.

Conforme declarei já, não voltei atrás, mas perseverei na mesma direção, arrastada pelo costume, com que os homens agem tanto mais calculada e regularmente, quanto mais velhos ficam.

Minha morte ocorreu do modo seguinte:

Há uma semana – falo de acordo com vossa contagem, porque, calculada pelas dores, eu poderia já estar ardendo no Inferno havia dez anos – faz pois uma semana que meu marido e eu fizemos, num domingo, uma excursão, que foi a última para mim.

Radiante despontara o dia. Eu sentia-me bem, como raras vezes. Perpassou-me, porém, um sinistro pressentimento.

Inesperadamente, na viagem de volta, meu marido que vinha guiando o carro e eu ficamos ofuscados pela luz de um automóvel que vinha em sentido contrário e com grande velocidade. Meu marido perdeu a direção.

Jesus! Estremeci. Não como oração, mas como grito. Senti uma dor esmagadora por compressão – uma bagatela em comparação com o tormento atual. Perdi então os sentidos.

Estranho! Naquela manhã mesma, nascera-me inexplicavelmente a idéia: poderias, enfim, mais uma vez ir à Missa. Soava-me como súplica. Claro e decidido, meu “não!” cortou o fio da idéia. Com isso devo acabar definitivamente. Tomo sobre mim todas as consequências. Agora as suporto.

O que aconteceu após a minha morte, tu conheces. A sorte de meu marido, de minha mãe, do meu cadáver e enterro, tudo te é conhecido até nos pormenores, como sei por uma intuição natural que todos nós temos. Do mais que acontece no Mundo, só temos um conhecimento confuso. Mas o que nos tocava de perto conhecemos. Assim conheço também teu paradeiro. (15)

15) S. Th. Suppl., q98, a3,: “As almas dos falecidos não têm seguro conhecimento de pormenores, porém apenas um enuviado conhecimento geral da natureza material”. p 98, a4: “Por esses conceitos (infusos) podem as almas só conhecer os pormenores pelos quais são habilitados, seja por índole, por estudos anteriores ou por divina disposição.

Acordei das trevas no momento da minha morte. Vi-me de repente envolvida de luz ofuscante. Era no mesmo lugar onde estava o meu cadáver. Aconteceu como em teatro, quando de repente apagam as luzes, a cortina é ruidosamente removida e aparece a cena tragicamente iluminada: a cena de minha vida.

Como num espelho, assim eu vi minha alma. Vi as graças pisadas aos pés, desde a juventude até o último “não!” dado a Deus.

Apossou-me de mim uma impressão como que de assassino levado ao tribunal à frente da sua vítima inanimada. – Arrepender-me? Nunca! (16)- Envergonhar-me? Jamais!

16)S. Th. Suppl. , q98, a2, r : “Os maus não se arrependem propriamente dos pecados, por lhes serem afeitos maliciosamente. Arrependem-se, porém, enquanto são castigados pelas penas dos pecados”.

Entretanto nem me era possível permanecer na vista de Deus, negado e reprovado por mim. Restava-me uma só coisa: a fuga.

Assim como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim minha alma se atirou longe desse aspecto horrível.

Esse era o Juízo particular.

O invisível Juiz falou: “Afasta-te!” Logo caiu minha alma, como uma sombra sulfúrica, no lugar do tormento eterno! (17)

17)“É certo que o Inferno é um local determinado. Mas onde esse local fica situado, ninguém sabe”. A eternidade das penas do Inferno é um dogma: seguramente o mais terrível do todos. Tem suas raízes na Sagrada Escritura, cf. Mt. 25, 41 e 46; II Tess. 1, 9; Jud. 13; Ap. 14,11 e 20,10; todos eles são textos irrefutáveis, em que “eterno” não se deixa trocar e interpretar por “longo”. Se não fora conveniente ilustrar esse dogma num caso particular, nem o próprio Nosso Senhor teria podido fazê-lo na parábola do rico folgazão e do pobre Lázaro. Lá fez o mesmo que aqui vem feito: desenhou o Inferno e como se pode cair nele. Não o fez por prazer sensacional, porém levado pela mesma intenção que ocasionou esta publicação. A finalidade deste folheto encontra sua expressão no seguinte conselho: “Desçamos ao Inferno ainda vivos, para que moribundos nele não caiamos”. Este conselho dirigido a casa um não é senão a paráfrase do Salmo 54: “Descendat in infernum viventes, videlicet, nedescendant morientes”,a qual se encontra numa obra (erradamente) atribuída a São Bernardo (Patr. Lat. Migne, vol. 184, Col. 314 b).

Últimas informações de Clara

“Assim finalizou a carta de Âni sobre o inferno. As últimas palavras eram quase ilegíveis, tão tortas estavam as letras. Quando eu acabara de ler a última palavra, a carta toda virou cinza.

Que é que lá ouço? Por entre os duros acentos das linhas que eu imaginava ter lido ressoou doce som de sino. Acordei de vez. Achei-me ainda deitada no meu quarto. A luz matinal da aurora penetrava nele. Da Igreja paroquial vinham as badaladas das Ave-Marias.

Pois tudo era apenas um sonho?

Nunca eu sentira na Saudação Angélica tanto consolo como após esse sonho. Pausadamente fui rezando as três Ave-Marias. Tornou-se-me então claro, claríssimo: a Ela cumpre segurar-te, à bendita Mãe do Senhor, venerar a Maria filialmente, se não quiseres ter a mesma sorte que te contou – ainda que em sonho – uma alma que jamais verá Deus.

Espantada e tremendo ainda pela visão noturna, levantei-me, vesti-me depressa e fugi para a capela da casa.

O coração palpitava-me violenta e descompassadamente. Os hóspedes, ajoelhados mais perto de mim, olhavam-me preocupados. Talvez pensassem que, por haver eu corrido escada abaixo, estivesse tão excitada e vermelha.

Uma bondosa dama de Budapeste, grande sofredora, franzina como uma criança, míope, todavia fervorosa no serviço de Deus e de longo alcance espiritual, disse-me à tarde no jardim: “Senhorita, Nosso Senhor não quer ser servido no expresso”.

Mas ela percebia então que outra coisa me havia excitado e ainda me preocupava. Ajuntou bondosamente: “Nada te deve angustiar – conheces o aviso de Santa Teresa – nada te deve alarmar. Tudo passa. Quem possui Deus, nada lhe falta. Só Deus basta”.

Quando sussurrava isso mesmo, sem qualquer tom de mestra, parecia-me ler na minha alma.

“Deus só basta”. Sim, Ele há de me bastar, neste e no outro mundo. Quero ali possuí-Lo um dia, por mais sacrifícios que aqui eu tenha ainda de fazer para vencer. Não quero cair no Inferno.

Apêndice- Esclarecimentos complementares

1) Confirmação do terrível dogma do Inferno

a) Existe o inferno? – Provas pedidas ao Bom Senso. – Pe. Lacroix – Editora S. C. J., Taubaté – Eis o primeiro opúsculo original que apareceu entre nós sobre o palpitante problema do Inferno (1aedição em 1929 e 2aem 1937), com 231 págs., de formato médio (15 x11 cm). Trata do assunto profunda e sumariamente em doze capítulos, dando em confirmação ao dogma do Inferno quatro provas filosóficas, tiradas do bom senso, e respondendo satisfatoriamente a doze perguntas ou objeções.

Como cada dogma da Igreja tem suas razões filosóficas, tiradas do bom senso humano, e como correm mundo, de boca a boca, os mesmos sofismas contra a existência do Inferno, cuidou o autor em salientar, sobretudo, as razões opostas do bom senso comum e examinar, em seguida, o valor das provas aduzidas. Por fim, expõe, no cap. IX, a universalidade da crença no Inferno e, no cap. X, a respectiva doutrina do Cristianismo.

Em abono da crença geral no Inferno entre os Judeus, cita o autor os seguintes tópicos da Bíblia: Moisés (Deut. 32, 22), Jó (c. 10), Judite (16, 21), Isaías (33, 14 e 34, 24), Jeremias (23, 40), Daniel (12,2) e São João Batista (Mat. 3, 12), e conclui: “Eis aí testemunhos de grande valor, alguns dos quais de veneranda antiguidade. Muitos séculos, pois, antes da história grega e latina, já existia a crença no Inferno, sendo que os Livros sagrados falam nele muitíssimas vezes como numa verdade reconhecida por todos, ao menos por todos os crentes”.

Estendia-se a crença do Inferno (Tártaro) e no Purgatório a todos os povos pagãos do mundo antigo. Quanto mais progrediram na cultura, tanto mais documentos deixaram dessas crenças, desde os Assírios, Caldeus e Egípcios até os Gregos e Romanos. Muitos poetas e escritores falaram dessa crença geral entre eles, senão da própria universalidade dessa crença entre todos os povos do mundo. O autor cita os seguintes: Homero, Orgeu, Hesíodo, Lino, Horácio, Ovídio, Virgílio, Sêneca etc.; Sócrates, Platão, Aristóteles, Cícero, Lucrécio, Celso. Eis, como exemplo, um trecho impressionante de Lucrécio (De natura rerum, lib. I, III): “Já não se tem mais sossego, é impossível dormir tranquilo: por que? Porque se tem que recear, depois desta vida, penas eternas, pelo medo das quais nenhum mortal pode ser feliz…”. O ímpio Voltaire confessa ( Addit. À l’Hist. Génér.): “A opinião da existência tanto de um Purgatório quanto de um Inferno é da mais remota antiguidade”. – Surgindo subterfúgios em contrário cumpre não esquecer as palavras de Joubert (Pensées et Essais et Maximes, t I, p. 318): “Desde que um raciocínio ataca o instinto e a prática universal, pode ser difícil refutá-lo, mas certíssimamente é enganador e falso”. (p.194)

No Novo Testamento salienta-se a crença na existência do Inferno como uma das verdades fundamentais da religião de Cristo. Nosso Senhor não assinalou essa verdade só duas ou três vezes e superficialmente, porém quinze vezes, e isso do modo mais explícito e impressionante, como em Marcos 9, 42, Lucas 16, 19 e Mateus 25, 41. Também os Apóstolos se referiram repetidas vezes ao castigo do fogo eterno, como São Judas (c.7), São Paulo (II Tess. 1, 9) e São João (Apoc. 14,11; 20, 10). No sentido óbvio de todos esses textos existe, insofismavelmente, o fogo eterno do Inferno.

b) Cristo e os demônios – Dr. P. Armando Polz (171 págs. De formato francês), editoras S. C. J., Taubaté – O assunto demônios é correlativo ao do Inferno. Se existem espíritos condenados por Deus ao castigo eterno do Inferno, e se esses procuram arrastar consigo, na perdição eterna, o maior número possível de homens, claro é que deve existir, para todos os réprobos, como que uma imensa cadeia infernal, tal como aponta a fé cristã, um braseiro de tormentos eternos horríveis.

Na introdução, o autor dá uma orientação geral acerca do assunto, expondo a crença pagã, judaica e cristã sobre os demônios.

Quem deve perfeitamente conhecer os demônios não é senão o próprio Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo. De inúmeros textos da Sagrada Escritura tira e concretiza o autor a palavra de Cristo sobre os demônios. Na 1aparte assinala nove características dos demônios; na 2aparte prova o triunfo de Cristo sobre eles todos. Da absoluta superioridade de Cristo sobre o demônio tira o autor a última conclusão da incontestável divindade de Cristo.

Se, pois, existem os demônios, tais quais o próprio Cristo os pintou, como inimigos de Deus e dos homens, deve existir o Inferno, ao qual todos eles estão condenados para sempre, juntamente com os homens seduzidos por eles e revoltados contra Deus.

2.No caminho do Inferno estão os ímpios e os pecadores impenitentes

Os ímpios vêm a ser chamados também os sem-Deus. Nada querem saber de Deus, nem de Cristo e de sua Religião. Chegam mesmo a odiá-los e persegui-los. Formam o imenso exército de satanás neste Mundo. A ele pertencem, como chefes invisíveis, a maçonaria e as similares sociedades secretas. A ele pertencem todos os niilistas, anarquistas, bolchevistas e comunistas militantes do Mundo. A ele pertencem todos os sem – Deus, que O negam teórica ou praticamente e vivem sem Ele. Inúmeros estão nessa condição. A consequência é fatal: como nada querem saber de Deus durante a vida e perseguem a religião o mais que podem, sua sorte eterna não pode ser senão a dos sem – Deus, a serem relegados ao Inferno e atormentados pelos demônios por toda a eternidade.

No caminho do Inferno estão igualmente todos os pecadores impenitentes. São Paulo preveniu (I Cor. 6): “Não vos enganeis: nem os ímpios, nem os idólatras, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os ébrios possuirão o reino do Céu”. Além dos pecados de ação há os de omissão, deixando-se de cumprir graves obrigações de estado ou de profissão, do estado matrimonial, sacerdotal ou religioso, da profissão exercida ou do cargo assumido. Ninguém pode dispensar-se do seu cumprimento. Daí resulta na vida de cada um, a possibilidade de cometer numerosos pecados mortais, por pensamentos, palavras e obras, pecados de orgulho, de injustiça e de luxúria.

Se o pecado grave em si merece o castigo do Inferno, só atira ao mesmo, caso não seja retratado, arrependido e reparado, como acontece na impenitência final do homem que morre em seu pecado ou impenitente. Errar e pecar é humano, mas obstinar-se no erro e perseverar no pecado, é diabólico. Se no momento de pecar o homem se deixa facilmente fascinar pelo deleite pecaminoso, logo depois de cometido o pecado, os olhos se lhe abrem e volta-lhe o bom senso; ele sente-se então naturalmente envergonhado e levado ao arrependimento. Se pelo contrário ele se obstinar no pecado, tanto mais culpado ele se torna. A obstinação no mal é um pecado contra o Espírito Santo. O adiamento da conversão leva muitíssimas vezes ao sumo castigo da impenitência final e conseguintemente ao Inferno.

N. B. – Como dedução lógica do que vem exposto cumpre finalmente notar que, além dos declarados inimigos de Deus, cairão fatalmente no Inferno todos os que desse nada querem ouvir, ler e saber, e que com ele não se importam e vivem como se ele não existisse.

3.Alternativa fatal

Deus colocou o homem num mundo de maravilhas que o encantam, com a ordem de dominar as criaturas, de usá-las sem abusar delas, de dar a Ele o que Lhe deve, de adorá-Lo, glorificá-Lo sobretudo, e de amar o próximo como a si próprio. Deu-lhe suficiente inteligência, para discernir o bem do mal, e suficiente força para evitar o mal e praticar o bem. Pela oração oferece-lhe quantas graças ele precisar, para cumprir o seu destino.

Enquanto o homem vive na Terra, acha-se atirado entre dois extremos, entre a definitiva posse de Deus no Céu e a sua definitiva perda no Inferno. Cumpre-lhe escolher entre o Sumo Bem e o Sumo Mal. Por sua vida revela-se pró ou contra Deus, amigo de Deus ou revoltado contra Ele. Se o homem preferir os bens perecíveis deste Mundo às recompensas espirituais do outro, perderá todos eles, os deste e os do outro Mundo. No fim da vida ficará relegado ao extremo oposto Deus, entregue aos demônios e abandonado aos mais horríveis tormentos do Inferno.

Cada dia da sua vida encontra-se o homem de novo nesta terrível alternativa, quanto a sua sorte definitiva eterna. A essa alternativa ninguém pode fugir. Para todos é a fatalidade final. Ao morrer, cada um receberá a recompensa do que tiver preferido em sua vida terrestre cada dia mais seguramente: ficará com Deus no Céu eternamente, ou ficará relegado ao Inferno, para o lugar da reprovação eterna e de tormentos sem fim. Ninguém escapará a esse dilema, a essa alternativa fatal. Ninguém fugirá das mãos de Deus. Diante de Deus, não há fuga possível, senão para Ele.

4. Temor e amor de Deus

Antes de tudo insistiu Nosso Senhor para com seus ouvintes na indispensável necessidade do santo temor a Deus. Basta lembrar o texto de São Mateus (10, 28): “Não temais aos que podem trucidar o corpo, mas não podem matar a alma. Muito antes temei Aquele que pode atirar corpo e alma ao Inferno”. – O papel que na vida espiritual cabe ao temor a Deus é básico: “É a última barreira contra a qual vem esbarrar a violência da tentação. Se ela ficar firme, o homem se salva do naufrágio do pecado. Se ela não resistir, torna-se ele vítima da própria perversidade” (p. 62 da obra citada). Em realidade: “O temor de Deus é o início da sabedoria”. (Prov. 1, 7)

O temor e o amor a Deus não se excluem, mas superpõem-se e completam-se mutuamente. Entre ambos há mais o motivo de interesse. Temor, interesse e amor, lícitos ou ilícitos, são os três únicos motivos que põem e mantêm o Mundo inteiro em movimento. Se o amor a Deus não é suficiente para levar o homem a cumprir a lei de Deus, restam os dois primeiros motivos, o do próprio interesse e o do temor a Deus. Esse é o último recurso de Deus para obrigar o homem a andar direito e cumprir os seus deveres. Deus aceita o serviço e o arrependimento humanos inspirados pelo temor reverencial ou filial, como também os inspirados pelo medo ao castigo, pelo que o pecador se afasta realmente do pecado, porque ofende e irrita a Deus. Fora da confissão, só vale a contrição perfeita de amor a Deus para se obter perdão. Resulta daí o imenso benefício e a imensa vantagem que a Confissão oferece aos Católicos.

Foi por amor ao homem que Deus criou o Mundo com todas as suas belezas. Foi por amor que Deus destinou o homem a viver um dia juntamente com Ele no Céu, em companhia de todos os Anjos e Santos. No entanto, o homem devia querer e merecer essa felicidade, e tornar-se digno da companhia divina por uma adequada vida e fidelidade a Deus. Esta é a razão do estado transitório do homem e da provação a que ele está submetido neste Mundo até a sua morte. O próprio Inferno, Deus o criou por amor aos homens, para obrigar-nos a quase forçar-nos a amá-Lo devidamente. Mas quem se recusar a se render ao amor de Deus e obstinar-se por maldade em servir aos ídolos da Terra, perderá fatalmente o Céu com a eterna felicidade, e cairá no Inferno de tormentos eternos. Enquanto, porém, o homem continuar a viver neste Mundo, Deus procura, sem cessar, atraí-lo para Si e convertê-lo, oferecendo-lhe graça e perdão. De braços abertos acolherá a qualquer momento o filho pródigo contrito, com suma bondade e misericórdia.

5. Ilimitada confiança na infinita bondade e misericórdia de Deus

(Revelações tiradas de Convite a uma vida de Amor, de Sóror Josefa Menéndez, 2aed., 1948, das págs.94 a133)

Ensinar-te-ei os meus segredos de amor, e tu serás exemplo vivo da minha Misericórdia, porque, se tenho tanto amor e predileção por ti que não és mais que miséria e nada, que não farei Eu por muitas outras almas mais generosas do que tu?

Farei conhecer que a minha obra repousa sobre o nada e a miséria, e que esse é o primeiro anel de cadeia de amor que desde toda a eternidade preparo às almas.

Farei conhecer até que ponto o meu Coração as ama e lhes perdoa. Vejo o íntimo das almas. … O ato de humildade que fazem reconhecendo suas fraquezas. … Pouco se Me dá a fraqueza delas. … Supro o que lhes falta.

Farei conhecer como é que o meu Coração se serve dessa fraqueza para dar a vida a muitas almas que a perderam. Farei conhecer que a medida do meu Amor e da minha Misericórdia para com as almas caídas não tem limites. …

Se tu és um abismo de miséria, Eu sou um abismo de Bondade e Misericórdia. O meu Coração é teu refúgio. Vem procurar nele tudo aquilo de que precisas, ainda mesmo que se trate de coisa que Eu te peça.

Não julgues que deixarei de amar-te por causa das tuas misérias, não: meu Coração ama-te por causa das tuas misérias, não: meu Coração ama-te e não te abandonará jamais. Bem sabes que é propriedade do fogo abrasar e destruir: assim é próprio do meu Coração perdoar, purificar e amar.

Não te disse muitas vezes que o meu único desejo é que as almas Me deem as suas misérias? Se não ousas aproximar-te de Mim, aproximar-Me-ei Eu de ti.

Quando mais fraquezas encontrares em ti, tanto mais Amor encontrarás em Mim. Pouco Me importam as tuas misérias, o que Eu quero é ser o Dono de tua miséria.

A tua pequenez dá lugar à minha grandeza. … A tua miséria e mesmo os teus pecados dão lugar à minha Misericórdia. … A tua confiança atrai o meu Amor e a minha Bondade.

Não vos peço senão aquilo que tendes. Dai-Me o vosso coração vazio e Eu o encherei; dai-Mo despido de tudo e Eu o revestirei; dai-Me as vossas misérias e Eu as consumirei. O que não vedes, Eu vo-lo mostrarei! … Pelo que não tendes, responderei Eu.

Há muitas almas que creem em Mim, mas poucas que acreditam no meu Amor; e, entre as que acreditam no meu Amor, são pouquíssimas as que contam com a minha Misericórdia.

Se peço amor em correspondência ao que Me consome, não é o único retorno que desejo das almas: desejo que creiam na minha Misericórdia, esperem tudo da minha Bondade, e não duvidem nunca do meu perdão.

Sou Deus, mas Deus do Amor! Sou Pai, mas Pai que ama com ternura e não com severidade. O meu Coração é infinitamente santo, mas também é infinitamente sábio e, como conhece a miséria e a fragilidade humanas, inclina-se para os pobres pecadores com Misericórdia infinita.

Amo as almas depois que cometeram o seu primeiro pecado se vêm pedir-Me humildemente perdão. … Amo-as ainda, quando choram o seu segundo pecado e, se isso se repete, não digo um bilhão de vezes, porém milhões de bilhões de vezes, amo-as e perdoo-lhes sempre e lavo no meu Sangue o último, como o primeiro pecado!

Não Me canso das almas e o meu Coração espera sempre que venham refugiar-se nEle, por mais miseráveis que sejam! Não tem um pai mais cuidado com o filho que é doente, do que com os que têm boa saúde? Para com esse filho, não são maiores as suas delicadezas e a sua solicitude? Assim também o meu Coração derrama sobre os pecadores, com mais liberalidade do que sobre os justos, a sua compaixão e a sua ternura.

Quantas almas encontrarão a vida nas minhas palavras! Quantas cobrarão ânimo ao ver o fruto dos seus esforços: um pequeno ato de generosidade, de paciência, de pobreza, pode vir a ser um tesouro e ganhar para o meu Coração um grande número de almas. … Eu não atendo à ação: atendo à intenção. O menor ato, feito por amor, pode adquirir tanto mérito e dar-Me tanta consolação! O meu Coração dá valor divino às menores ações. O que quero é amar. Não procurar senão amor. … Não peço senão amor.

O fogo eterno do Inferno será a merecida paga pelo Amor de Deus desprezado, calcado aos pés.

Carta do Além – do original Alemão de 1953

Com notas do Padre Bernhardin Krempel, C.P., Doutor em Teologia

Download Católico

Bom humor e brincar em Santo Tomás de Aquino

bom-humor-e-brincar-em-santo-tomas-de-aquino

BOM HUMOR E BRINCAR EM S. TOMÁS DE AQUINO

Luiz Jean Lauand

( O Tratado sobre o brincar de Tomás de Aquino corresponde ao In X Libros Ethicorum, IV, 16 – Comentário à Ética de Aristóteles. A presente tradução foi feita a partir do texto latino da edição de Marietti, Turim, 1934).

Apresentamos, a seguir, o Tratado sobre o Brincar de S. Tomás de Aquino (1225-1274), o principal pensador medieval.

Dentre os diversos preconceitos a respeito da Idade Média, um dos mais injustos é o que a concebe como uma época que teria ignorado, ou mesmo combatido, o riso e o brincar. Na verdade, o homem medieval é muito sensível ao lúdico; convive a cada instante com o riso e com a brincadeira.

Comecemos pela fundamentação teológica do lúdico. Recordemos que o cristianismo (tão marcante na Idade Média), ao dar ao homem um vivo sentido de mistério e uma humildade anti-racionalista (não anti-racional; anti-racionalista!), dá-lhe também o senso de humor. Pois a leveza do riso pressupõe a aceitação da condição de criatura, de que o homem não é Deus, do mistério do ser, da não-pretensão de ter o mundo absoluta e ferreamente compreendido e dominado pela razão humana. O racionalismo, pelo contrário, é sério; toma-se demasiadamente a sério e, por isto mesmo, é tenso e não sabe sorrir.

O homem medieval brinca porque acredita vivamente naquela maravilhosa sentença bíblica que associa o brincar da Sabedoria divina à obra da Criação: quando Deus criou o mundo e fez brotar as águas das fontes, assentou os montes, fez a terra e os campos, traçou o horizonte, firmou as nuvens no alto, impôs regras ao mar e assentou os fundamentos da terra “ali estava Eu (a Sabedoria divina) com Ele como artífice, brincando (ludens) diante dEle todo o tempo; brincando (ludens) sobre o globo terrestre, e minhas delícias são estar com os filhos dos homens” (Prv 8,30-31).

Já de outro ponto de vista, o histórico-psicológico, também é facilmente compreensível a atitude lúdica da Idade Média, uma época jovem. A juventude e a velhice não se predicam só das pessoas singulares, mas também das épocas e regiões. A atitude jovem que distingue hoje a América é semelhante à que caracteriza a Idade Média.

Assim, a Idade Média (sobretudo a Primeira Idade Média), na ingenuidade de sua juventude, valorizou, mais do que qualquer outra época, a cultura popular. Fomentou-a. Os mais sábios mestres dirigem-se a seus alunos de modo informal e lúdico (aliás um dos sentidos derivados de ludus é escola; fenômeno paralelo ao da derivação de escola de scholé, lazer). Em Alcuíno (séc. VIII), por exemplo, encontramos diálogos repletos de enigmas, brincadeiras e piadas, pois – é a sua norma pedagógica – “deve-se ensinar divertindo”. Para a época, é perfeitamente natural que um intelectual do porte de um Alcuíno ensine às crianças através de brincadeiras, como a seguinte:

“Se me lês na ordem certa, comes-me;

se me lês de trás para diante, cavalgas-me.

Quem sou eu?”

O exemplo acima é um típico exercício da escola elementar medieval, unindo o didático ao lúdico. “Cavalgar” exige complemento direto, acusativo. O aluno que esquecesse deste ponto da gramática não resolveria a adivinha; já aquele que se lembrasse, saberia que a palavra em questão começa e termina por m: malum (pomo) e mula (ou, no acusativo, mulam) é a solução.

E no ensino de Aritmética é freqüente encontrarmos problemas com enunciado lúdico. Por exemplo: “Numa escada com 100 degraus, no 1º. degrau está pousada uma pomba; no 2º., 2; no 3º., 3; e assim por diante até o 100º. Diga, quem puder, quantas pombas há no total? (1)”

Não só o conteúdo do ensino era apresentado de forma jocosa; pratica-se nas escolas dos monges o lúdico também para “aguçar o engenho das crianças”. Misturados em listas medievais de ensino elementar de Aritmética, encontramos problemas como este: “Um homem devia passar de uma a outra margem de um rio, um lobo, uma cabra e um maço de couves. E não pôde encontrar outra embarcação a não ser uma que só comportava dois entes de cada vez, e ele tinha recebido ordens de transportar ilesa toda a carga. Diga, quem puder, como fez ele a travessia? Resposta: Primeiro leva a cabra, deixando o lobo e a couve. Depois volta e retorna com o lobo. Deixado o lobo, toma a cabra etc.”.

O lúdico como atitude recebe também uma fundamentação filosófica, particularmente em Tomás de Aquino, que entoa o elogio do brincar. A atualidade de seu pensamento manifesta-se de modo mais agudo na Ética, campo em que Tomás situa o lúdico.

Tomás trata tematicamente do brincar no Comentário à Ética de Aristóteles (IV,16) e na Suma Teológica, II-II, questão 168, artigos 2, 3 e 4, que comentaremos brevemente, a seguir.

Observemos desde já que em todos os textos de Tomás recolhidos neste trabalho, traduziremos ludus por brincar. E deixemos claro que oludus de que Tomás trata nestes textos é sobretudo:

– o brincar do adulto (embora nada impeça que – com as devidas adaptações – se aplique também às crianças).

– a graça, o bom humor, a jovialidade e leveza no falar e no agir, que tornam o convívio humano descontraído, acolhedor, divertido e agradável (ainda que possam se incluir nesse conceito de brincar também as brincadeiras formalmente estabelecidas como tais).

– virtude da convivência, do relacionamento humano.

Ainda uma observação sobre as palavras ludus e jocus. No latim, a palavra jocus é originalmente reservada para as brincadeiras verbais: piadas, enigmas, charadas etc. Já ludus – de que se originaram as palavras: aludir, iludir, ludibriar, eludir, prelúdio etc. – refere-se, originalmente, ao brincar não-verbal, mas por ação. No século XIII, jocus e ludus são usadas como sinônimas: “As palavras ou ações – diz Tomás em II-II, 168, 2, c – nas quais só se busca a diversão chamam-se lúdicas ou jocosas” e “a distração se faz pelas brincadeiras (ludicra) de palavra e ação (verba et facta)”.

Assim, o lúdico assume diversas dimensões: o estado de espírito de brincar e suas eventuais manifestações em brincadeira verbal, a de ação e a de jogos. Porém, para bem compreendermos o tratamento que Tomás dá ao brincar, é necessária uma breve exposição de sua concepção de ética.

Para Tomás, a moral é o ser do homem, doutrina sobre o que o homem é e está chamado a ser. A moral é entendida como um processo de aperfeiçoamento, de auto-realização do homem; um processo levado a cabo livre e responsavelmente e que incide sobre o nível mais fundamental, o do ser-homem: “Quando, porém, se trata da moral, a ação humana é vista como afetando não a um aspecto particular, mas à totalidade do ser do homem… ela diz respeito ao que se é enquanto homem” (I-II, 21, 2 ad 2).

A moral, nesse sentido, pressupõe antes e acima de tudo conhecimento sobre o ser do homem; um conhecimento que, insistamos, remete a um único fundamento: a natureza humana. Deste modo, toda norma moral deve ser entendida como um enunciado a respeito do ser do homem e toda transgressão moral traz consigo uma agressão ao que o homem é. Para Tomás, cada norma moral é, na verdade, um enunciado sobre o ser. Os imperativos dos mandamentos (“Farás x…”, “Não farás y…”) são, no fundo, enunciados sobre a natureza humana: “O homem é um ser tal que sua felicidade, sua realização, requer x e é incompatível com y”.

Neste quadro, podemos compreender a doutrina de Tomás sobre a virtude. A virtude – como também seu oposto: o vício – é um hábito (naturalmente, a virtude é hábito bom; e o vício, mau). O nosso tempo anda tão desorientado no que diz respeito à Educação Moral que a própria palavra hábito nos causa aversão: associamos hábito a condicionamento, domesticação etc. Porém, o verdadeiro sentido do hábito, o que lhe dá Tomás, nada tem que ver com essas deformações. Hábito é pura e simplesmente uma qualidade adquirida (auto-adquirida e livremente desenvolvida) que facilita e aperfeiçoa a ação e aperfeiçoa também o próprio homem.

O bem objetivo sobre o qual incide a virtude costuma situar-se como um termo médio entre dois extremos de vício: o do excesso e o do defeito. Daí o adágio “in medio virtus“, a virtude está no meio, com o que, naturalmente, não se afirma ser a virtude uma burguesa mediocridade de média, mas sim um agudo pico entre dois abismos de erro. Assim, por exemplo, a virtude da liberalidade, o reto uso do dinheiro, é termo médio entre a avareza e o malbaratar irresponsável.

Ao tratar do brincar na Suma, a afirmação central de Tomás (fundamentada na concepção de ética que indicamos) encontra-se no ad 3 do art. 3: Ludus est necessarius ad conversationem humanae vitae, o brincar é necessário para a vida humana (e para uma vida humana). A razão dessa afirmação, como sempre, a encontraremos no ser do homem, desenvolvida no artigo 2, que passamos a resumir. Nele, Tomás afirma que assim como o homem precisa de repouso corporal para restabelecer-se (sendo suas forças físicas limitadas, não pode trabalhar continuamente), assim também precisa de repouso para a alma, o que é proporcionado pela brincadeira.

Daí decorrem importantes conseqüências para a educação: o ensino não pode ser aborrecido e enfadonho: o fastidium é um grave obstáculo para a aprendizagem (2). A tristeza e o fastio produzem um estreitamento, um bloqueio, ou, para usar a metáfora de Tomás, um peso (aggravatio animi) (3). Daí que Tomás recomende o uso didático de brincadeiras e piadas: para descanso dos ouvintes (ou alunos). E, tratando do relacionamento humano, Tomás chega a afirmar que ninguém agüenta um dia sequer com uma pessoa aborrecida e desagradável (4).

Após estabelecer a necessidade do brincar, o Aquinate indica três precauções a tomar nessa matéria:

1. Evitar brincadeiras que envolvam agir ou falar torpe ou nocivo.
2. Não se deixar envolver tão desenfreadamente pelo brincar a ponto de perder a gravidade da alma. E aplica ao adulto o mesmo critério do brincar que se impõe às crianças: “não permitimos às crianças toda espécie de brincadeiras, mas só as que não sejam moralmente más”.

3. Cuidar de que sejam adequados o momento (“brincadeira tem hora!”), o lugar (“Aqui não é lugar de brincadeira!”) e as pessoas envolvidas.

Feitas essas considerações, Tomás conclui: “Vê-se pois que as brincadeiras devem ser ordenadas pela regra da razão (e razão, no caso, significa: conhecimento objetivo do ser). E o hábito que opera segundo a razão é a virtude moral. Há portanto uma virtude do brincar que é o que Aristóteles chama de eutrapelia”.

(1) Este problema (e o seguinte) encontra-se na antologia de textos didáticos medievais, por nós publicada sob o título Educação, Teatro e Matemática Medievais, 2ª. ed., S. Paulo, Perspectiva, 1990.

(2) Suma Teológica, prólogo. Em outro lugar da Suma Teológica, no tratado sobre as paixões, Tomás analisa um interessante efeito da alegria e do prazer na atividade humana, o que ele chama metaforicamente de dilatação: que amplia a capacidade de aprender tanto em sua dimensão intelectual quanto na da vontade (o que designaríamos hoje por motivação): “A largura é uma dimensão da magnitude dos corpos e só metaforicamente se aplica às disposições da alma. ‘Dilatação’ indica uma extensão, uma ampliação de capacidade e se aplica à ‘deleitação’ (Tomás joga com as palavras dilatatio-delectatio) com relação a dois aspectos. Um provém da capacidade de apreender que se volta para um bem que lhe convém e por tal apreensão o homem percebe que adquiriu uma certa perfeição que é grandeza espiritual: e por isso se diz que pela deleitação sua inteligência cresceu, houve uma dilatação. O segundo aspecto diz respeito à capacidade apetitiva que assente ao objeto desejado e repousa nele como que abrindo-se a ele para captá-lo mais intimamente. E, assim, dilata-se o afeto humano pela deleitação, como que entregando-se para acolher interiormente o que é agradável” (I-II, 33, 1).
——————————————————————————————————

(3) I-II, 37, 2, ad 2.

(4) I-II, 114, 2 ad 1.

Download Católico

(function(d, s, id) {
var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];
if (d.getElementById(id)) return;
js = d.createElement(s); js.id = id;
js.src = “//connect.facebook.net/pt_BR/sdk.js#xfbml=1&version=v2.3”;
fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);
}(document, ‘script’, ‘facebook-jssdk’));

A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em forma de Catecismo

a-suma-teologica-de-santo-tomas-de-aquino-em-forma-de-catecismo

Suma Teológica é o título da obra básica de São Tomás de Aquino, frade, teólogo e santo da Igreja Católica, um corpo de doutrina que se constitui numa das bases da dogmática do catolicismo e considerada uma das principais obras filosóficas da escolástica. Foi escrita entre os anos de 1265 a 1273.
Nesta obra Aquino trata da natureza de Deus, das questões morais e da natureza de Jesus.

Excertos

Dizemos que Deus não tem nome ou está acima de qualquer denominação, porque a sua essência sobrepuja o que dele inteligimos e exprimimos pela palavra.
A verdade, considerada como virtude, não é a verdade comum, mas uma certa verdade, pela qual o homem se mostra como é, nas palavras e nas obras. A verdade da vida é aquela pela qual o homem, na sua vida, realiza o fim para o qual foi ordenado pelo intelecto divino…

Sobre a Suma

A Obra encontra-se dividida em 3 partes, onde se encontram 512 questões.
Cada questão tem perguntas individuais. Estas representam os 2669 capítulos onde estão contidas 1,5 milhões de palavras, 1,5 vezes mais que todas as palavras de Aristóteles (1 milhão), o dobro de todas as palavras conhecidas de Platão.
  • “A Suma Teológica é o céu visto da terra” (Papa Pio XI, in: Alocução de 12 de dezembro de 1924 no colégio Angelicum de Roma).
  • “A todos quantos agora sentem sede da verdade, dizemos-lhes: ide a Tomás de Aquino” (Pio XI, Studiorum Ducem).

______________________________________________________________________________

Download Católico